quarta-feira, 17 de julho de 2013

Sobre fan fictions, livros digitais, direito dos autores etc

Imagem meramente ilustrativa

Muito interessante esta matéria publicada na Folha de S. Paulo de hoje. Não é sobre livros de Jornalismo, mas é uma boa reflexão sobre livros. Leia abaixo.

Quem é o autor?
Sai o fetiche do livro: escritores e editores viram produtores que exploramhistórias em várias plataformas e as multiplicam em obras coletivas
RAQUEL COZERCOLUNISTA DA FOLHA
Alguma coisa está muito fora do padrão quando a maior livraria on-line do mundo abraça uma causa que há mais de uma década cresce às margens do mercado e à revelia de alguns de seus autores mais vendidos.

Isso aconteceu duas semanas atrás, quando a Amazon estreou a plataforma Kindle Words, pela qual fãs que gostam de criar histórias baseadas em best-sellers --a chamada "fan fiction", que reaproveita cenários e personagens de outros escritores-- podem não só fazer isso legalmente como vender suas criações.

Para criar a plataforma, a Amazon obteve licenças de séries como "Gossip Girl", de Cecily Von Ziegesar, e "Pretty Little Liars", de Sara Shepard. Com isso, tramas que chegavam a ser vistas como plágio agora podem render frutos ao fã, ao escritor que o inspirou e, é claro, à livraria.

Nesse cenário, o autor da história original deixa de ganhar especificamente pela venda de livros e sua obra vira uma marca, licenciada e multiplicada pelas mãos de vários outros escritores.

Esse é o recorte de um momento que o editor americano Richard Nash retrata no provocativo ensaio "Qual o negócio da literatura?", no mais recente número da "Serrote", revista do Instituto Moreira Salles, que será lançado em São Paulo neste domingo.

É um cenário em que autor e editor vão além dos livros para virar produtores de cultura. "A cultura do livro não é fetichismo com o texto impresso; é o movimento da ideia e do estilo na expressão de histórias", escreve Nash.

O texto põe em cheque o direito autoral --justo o que hoje garante a sobrevivência do mercado. Defende que esse direito não foi criado para proteger o autor, mas "nasceu de um interesse meramente corporativo".

O editor explica à Folha: "Uma parcela mínima de escritores faz dinheiro. O direito autoral existe para facilitar ao editor o retorno sobre seu investimento e impedir cópias do seu produto."

Isso num mundo analógico. No digital, defende Nash, "a receita não virá de fazer cópias, virá de serviços, palestras, produtos associados. São formas de gerar receita que independem do faturamento com vendas de livros."

Nesse contexto, entram iniciativas como a plataforma de "fan fiction" da Amazon, festivais literários como a Flip e romances colaborativos como "The Silent History", um aplicativo lançado há pouco no iTunes e que permite aos leitores expandir a história.

Nash, que ganhou em 2005 um prêmio de de criatividade da Associação de Editores Americanos pela editora independente Soft Skull, criou em 2011 um site que explora essas alternativas no que diz respeito ao mercado.

Com 10 mil títulos à venda, o Small Demons é uma enciclopédia de referências literárias: você acha desde uma lista de livros que abordam Bob Dylan até todos os famosos citados em "Infinite Jest", de David Foster Wallace.

FORA DA CURVA
No que diz respeito ao autor, o engenheiro de software brasileiro Silvio Meira enxerga ainda mais possibilidades.

Autor de palestra que, no Congresso do Livro Digital, em junho, lhe rendeu uma emboscada de bibliotecários (insatisfeitos com seu questionamento sobre a importância de bibliotecas físicas no futuro), Meira diz que o escritor já vive cenário multifacetado.

"Conheço dezenas de escritores, mas não conheço nenhum que viva dos livros que escreve. Alguns são colunistas, outros fazem roteiros, outros atuam em editoras", diz.
Apesar disso, no centro de tudo está o livro. "Se alguém pirateia meu livro e o lê inteiro, posso acreditar que estará interessado o suficiente para ir a alguma palestra que eu vá ministrar", exemplifica.

Para ele, os direitos autorais serão vistos no futuro como um ponto fora da curva na história da literatura.

"O autor foi criado pela prensa. Antes de Gutenberg, não existia copyright. As histórias pertenciam às comunidades. Vemos agora uma volta ao coletivo, com mixagem, apropriação de textos. O conceito de autor fica difuso".

É uma visão que editores de grandes casas ainda entendem como algo distante.

CONFIANÇA
"O livro digital ainda está na margem de 2% a 2,5% no faturamento de editoras no Brasil. Pode ser que aconteçam mudanças radicais envolvendo direitos autorais, mas só quando esse mercado for suficientemente grande", diz Pascoal Soto, da LeYa.

Tomas Pereira, da Sextante, estranha a visão de que o direito autoral interesse mais às editoras que aos autores. "Nossa atividade nasce da confiança do autor. O que pagamos a ele representa nosso maior custo de produção."

Ele concorda que quase nenhum autor vive da venda de livros, mas não vê nisso justificativa para o abandono do valor que o leitor se dispõe a pagar pelo livro. Saber por quanto tempo, no modelo que se impõe, haverá disposição para pagar por algo que se pode ter de graça, como lembra Nash, é o mistério.

'O direito de proibir cópias perdeu a importância'
DA COLUNISTA DA FOLHA
Leia trechos da entrevista com Richard Nash, autor do ensaio "Qual o negócio da literatura", na "Serrote".
(RC)
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Folha -- O sr. escreve que o mercado editorial é "um sistema que produz boa literatura apesar de si mesmo". Pode explicar essa ideia?
Richard Nash -- Nós [editores] estamos tão propensos a ignorar a boa literatura como a encontrá-la. A verdade é que ninguém jamais foi consistentemente capaz de "descobrir" a grandeza, nem sequer a comercial, assim como quem aposta em corridas de cavalo não é tão bom no que faz. Isso em parte porque a grandeza não é só intrínseca à obra, é também contextual, tem a ver com o momento.
O sistema editorial será melhor quando se focar na produção de cultura, em oposição à descoberta de arte.

Acredita que direitos autorais se tornem algo ultrapassado?
Um estudo recente indicou que a indústria editorial na Alemanha do século 19 era mais robusta sem copyright do que a inglesa com copyright. Direitos autorais existem para facilitar aos editores, num mundo analógico, ter retorno sobre seu investimento e impedir concorrentes de copiar seu produto.
Em retrospecto, eles provavelmente não eram necessários na era analógica e certamente não são viáveis agora. A receita não virá de fazer cópias de coisas. Virá de serviços, palestras, produtos associados. São formas mais sofisticadas de gerar receita a partir de ideias e histórias.

E como ficaria o autor?
À medida que o direito de proibir cópias (o copyright) se torna menos importante, o de ser identificado como autor do trabalho ganha força.

O direito de marcas suplanta os direitos autorais como apoio legal para a economia da escrita. É o que pode me impedir de fingir ser Malcolm Gladwell e ganhar US$ 50 mil para falar a um grupo que tenha gostado do livro "Blink".

Se sua marca é forte, você pode licenciá-la sob termos restritivos a outros, como a Amazon fez agora com sua plafatorma de "fan fiction", com autores autorizando histórias baseadas nas suas.

E essa criação se torna parte de um grande fluxo remixável na sociedade. Queremos todos a camiseta do artilheiro. Isso ele controla, mas todos tentam copiar a forma como o gol foi marcado.

Agora, mesmo sem copyright, muitos preferem o vendedor autorizado. Nos EUA, a moda é manter a etiqueta da loja no boné de beisebol. Autores como E.L. James sempre surgirão, como memes. É um "Gagnam Style" [música pop sul-coreana que virou mania] do mundo literário, livros comprados simplesmente porque todos estão comprando.


terça-feira, 9 de julho de 2013

"Guerras e tormentas - Diário de um correspondente internacional", Rodrigo Lopes


Taí. Parece interessante. Gosto do assunto. Encomendei. E leiam o artigo de Carlos Alberto Di Franco publicado hoje na íntegra pelo Estadão e resumido pelo Globo.

"Prendo a respiração, tento puxar o ar pela boca, mas o cheiro dos cadáveres em decomposição invade todos os meus sentidos. Volto alguns passos, penso em não olhar. Mas, como jornalista, sinto o dever de escancarar a realidade crua. Na escola, há pelo menos dez corpos insepultos, na quadra de futebol, ao sol. Pobreza, porcos misturados a pães, arroz e bananas e trânsito confuso sempre fizeram parte do dia a dia dos haitianos. Até o cheiro forte da comida temperada e exótica é antigo conhecido dos brasileiros. A diferença, agora, é que tudo isso está misturado ao cheiro de morte. Assim é o Haiti. Homens e mulheres que podem sofrer tragédias violentas uma ou duas vezes, ou até três - e depois sofrer ainda mais."

O relato em primeira pessoa do jornalista Rodrigo Lopes, repórter multimídia e correspondente internacional do Grupo RBS, mostra a garra da reportagem de qualidade. A adrenalina da guerra, o infindável sofrimento de povos castigados pela força misteriosa da natureza, o registro de momentos de admirável grandeza moral, um impressionante mosaico do drama humano, batem forte no leitor. O texto está despido de sensacionalismo, mas carregado de paixão. E o que seria do jornalismo se faltasse o fascínio do repórter por seu ofício? Rodrigo Lopes, um jornalista jovem e tarimbado, não é um espectador neutro da história. Ainda bem. Derramou lágrimas. Manifestou indignação. Vibrou com fagulhas da vida humana. Guerras e Tormentas (BesouroBox Edições) é um mergulho do repórter nos principais acontecimentos deste início de século. Vale a pena.

"23h do dia 5 de abril, uma terça-feira. Sentado no chão gelado de paralelepípedos da Via della Conciliazione, sinto-me como uma ilha, cercada de gente por todos os lados. Para onde olho, há pessoas chorando, rezando, cantando." A multidão passa diante do corpo do papa. "São 5h48m. Um arrepio percorre o meu braço direito. Estático a dois metros de João Paulo II, é como se o tempo parasse. Os fiéis passam por mim. Prendo o passo, ando devagar, para que o guarda não perceba que quero ficar mais tempo. Ganho uns 15 segundos extras. Mas não é mais possível ficar. Um segurança se aproxima e interrompe meu êxtase. Proibido celular - ele diz. Os 10 minutos mais emocionantes da minha vida se encerram em duas frases, ao vivo para o sul do Brasil: Tenho que desligar a pedido de um segurança. Voltamos a qualquer momento... Sigo caminhando, à direita do caixão. Tempo apenas para uma foto. Ao sair da basílica, o azul matutino do céu de Roma se abre na praça. Meu telefone toca: Seu f.d.p, me fez chorar! Do outro lado da linha, Luciano Wilson, meu amigo de infância, o Jesus das encenações da via-sacra do nosso bairro, nos tempos do grupo de jovens da igreja."

Luciano representa a cabeça do leitor médio. Ninguém resiste à magia da reportagem. Os jornais, prisioneiros das regras ditadas pelo marketing, estão parecidos, previsíveis e, consequentemente, chatos. Precisam, com urgência, recuperar a capacidade de surpreender e emocionar o leitor.

A revalorização da reportagem e o revigoramento do jornalismo analítico devem estar entre as prioridades estratégicas das empresas de comunicação. É preciso seduzir o leitor com matérias que rompam com a monotonia do jornalismo declaratório. Menos Brasília e mais vida. Menos aspas e mais apuração. Menos frivolidade e mais consistência. Além disso, os leitores estão cansados do baixo-astral da imprensa brasileira. A ótica jornalística é, e deve ser, fiscalizadora. Mas é preciso reservar espaço para a boa notícia, para o empreendedorismo, para a inovação. Tem muita coisa interessante acontecendo. A boa notícia existe. E vende jornal. O leitor que aplaude a denúncia verdadeira é o mesmo que se irrita com o catastrofismo que domina muitas de nossas pautas.

Precisamos, enfim, combater a síndrome ideológica que ainda persiste em alguns guetos anacrônicos. Seu exemplo mais acabado é a patologia dos rótulos. Alguns jornalistas não perceberam que o mundo mudou. Insistem, teimosamente, em reduzir a vida à pobreza de quatro qualificativos: direita, esquerda, conservador, progressista. Tais epítetos, estrategicamente pendurados, têm dupla finalidade: exaltar ou afundar, gerar simpatias exemplares ou antipatias gratuitas. A boa reportagem é sempre substantiva. O adjetivo é o adorno da desinformação, o farrapo que tenta cobrir a nudez da falta de apuração. É, frequentemente, uma mentira.

A apuração de faz de conta representa uma das maiores agressões ao leitor. Matérias previamente decididas em redutos sectários buscam a cumplicidade da imparcialidade aparente. A decisão de ouvir o outro lado não se apoia na busca da verdade. É um artifício para validar a premissa que se quer impor. O pluralismo de fachada, hermético e dogmático, convoca pretensos especialistas para declarar o que o repórter quer ouvir. Mata-se a reportagem. Cria-se a versão.

É importante que os repórteres e os responsáveis pelas redações tomem consciência desta verdade redonda: a imparcialidade (que não é neutralidade) é o melhor investimento. O leitor quer informação clara, corajosa, bem apurada. Não devemos sucumbir à tentação do protagonismo. Não somos construtores de verdades. Nosso ofício, humilde e grandioso, é o de iluminar a história.

Inúmeras foram as reflexões suscitadas pelo excelente texto do repórter Rodrigo Lopes. O leitor, em qualquer plataforma, evita os produto sem alma. Recusa as tentativas de engajamento ideológico. Quer matérias interessantes, pautas próprias. Quer menos burocracia e mais criatividade. Quer menos jornalismo de registro e mais reportagem de qualidade. Quer um jornalismo rigoroso, mas produzido com paixão.

* Carlos Alberto di Franco é doutor em comunicação pela Universidade de Navarra e diretor do departamento de comunicação do Instituto Internacional de Ciências Sociais.

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quinta-feira, 4 de julho de 2013

"Como aprendi o português, e outras aventuras", Paulo Rónai


Interessante. Vejam a matéria que saiu hoje no Segundo Caderno do Globo.

Para ler é só passar a mãozinha na imagem

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quarta-feira, 3 de julho de 2013

"O pai dos burros - dicionário de lugares-comuns e frases feitas", Humberto Werneck

Delícia de pequeno dicionário. Essencial para jornalistas, publicitários, rps e estudantes de Comunicação de todas as idades. Aliás, para qualquer tipo de estudante que se meta a escrever nesses dias em que todo mundo escreve. É de 2009, mas continua atualíssimo.


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"O desatino da rapaziada", Humberto Werneck


E já que falei acima de Mestre Humberto Werneck, recomendo também essa delícia de livro que "dispensa apresentação" pois fala de Drummond, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e outros geniais mineiros que fizeram e ainda fazem a história da imprensa, da literatura e da crônica.

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sábado, 22 de junho de 2013

"O lavrador de Ipanema", Rubem Braga

Se é Rubem Braga é bom. Acabo de ler um anúncio na Folha que a Editora Record publicou um livro "novo" de crônicas do saudoso e genial Rubem Braga. Claro que recomendo. E vou encomendar.


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"A cozinha venenosa, um jornal contra Hitler", Silvia Bittencourt

Deu hoje na Folha de S. Paulo. Interessante. Vale conferir. Vou encomendar.





Os inimigos de Hitler
Livro conta pela primeira vez história do jornal 'Münchener Post', maior oponente do nazista na imprensa alemã
CASSIANO ELEK MACHADODE SÃO PAULO

De todos os bilhões de folhas de papel jornal gastas ao longo da história para tratar de Adolf Hitler, as primeiríssimas saíram da gráfica de um jornalzinho chamado "Münchener Post".

Numa sexta-feira de maio de 1920, uma nota da seção "Assuntos de Munique" registrava: "Uma espécie de partido, que ainda anda de fraldas e aparenta ter saúde bem fraca, vem aparecendo às vezes em público, sob o nome de Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães'. Na terça-feira à noite, um senhor chamado Hitler falou sobre o programa desse partido'".

A reportagem informava que o tal senhor "pregou o antissemitismo nos moldes nacionalistas".

Mais do que pioneiro em farejar que era preciso ficar de olho no rapaz de bigode curto e fala inflamada, o "Post" converteu-se logo em seu mais encarniçado inimigo na imprensa alemã.

Num livro importante sobre o fenômeno nazista, "Para Entender Hitler" (Record, 2002), o jornalista norte-americano Ron Rosenbaum opina: "A batalha travada entre Hitler e os corajosos repórteres do Post' é um dos grandes dramas nunca relatados da história do jornalismo".

Uma jornalista brasileira radicada na Alemanha desde 1991 resolveu a questão. Em "A Cozinha Venenosa - Um Jornal Contra Hitler", livro que acaba de ser lançado aqui, Silvia Bittencourt, 49, conta pela primeira vez a história.

Fruto de três anos de trabalho, o volume, lançado pela editora Três Estrelas (do Grupo Folha), conta em minúcias as batalhas, que transcenderam as palavras, entre o diário e os nazistas.

Segundo Bittencourt, e a julgar pelo que relata Rosenbaum, não há nem na Alemanha livros sobre o "Post".

"Aqui ninguém conhece o Münchener Post', nem mesmo os políticos sociais-democratas atuais", diz a autora, em referência ao partido político alemão que criou o jornal, no final dos anos 1880.

ASCENSÃO
A pesquisa de Bittencourt se desenvolveu em especial em arquivos e bibliotecas de Munique, cidade na qual o austríaco Adolf (1889-1945) se estabeleceu em 1913.
Depois de ter lutado na Primeira Guerra Mundial, entre 1914 e 1918, o até então artista frustrado encontra nos fundos de uma cervejaria no centro da cidade, em 1919, uma reunião de um pequeno partido trabalhador, onde começaria sua trajetória.

"De um desocupado, sem formação ou profissão alguma, Hitler se tornou, em poucos meses, uma estrela em Munique", diz Bittencourt.

Ao contar a trajetória do "Münchener Post", ela narra em detalhes a ascensão de Hitler e do partido, que saltou dos 200 filiados do final de 1919 aos 4 milhões de membros em 30 de janeiro de 1933, quando Hitler foi nomeado chanceler alemão.

O "Post" não duraria então mais do que 40 dias. Embora já tivesse sobrevivido a incontáveis atentados nazistas, o de 9 de março foi o final.

"Destroçaram os equipamentos de produção do jornal, como os linotipos. Colocaram barras de ferro nas engrenagens das prensas rotativas, a fim de impedir que elas voltassem a ser usadas, e lançaram os grandes barris de tinta de impressão sobre as calçadas", relata a autora.

O pequeno grupo de jornalistas que produzia o diário, que à época tinha dez páginas diárias e modestos 15 mil exemplares, não estava na Redação. Quase todos escaparam, um deles cruzando os Alpes a pé. Outros não tiveram a mesma sorte.

O editor de cultura, Julius Zerfass, foi um dos primeiros encarcerados no campo de concentração de Dachau, do qual seria solto no fim do ano.

"A Cozinha Venenosa", título do livro, era a maneira pela qual Hitler se referia ao jornal. No glossário do ditador, "veneno" era um termo usado para o mais abominável.
O jornal retribuía chamando o nazista de "arremessador piolhento de lama" ou classificando seu partido, já em 1923, como "o bacilo venenoso mais perigoso que o corpo do povo vem carregando consigo". Como diz Rosenbaum, se houve alguém na história que pode dizer "eu avisei" foram os repórteres do "Post", primeiros "a tentar alertar o mundo para a natureza da besta feroz que rastejava em direção a Berlim".

CRÍTICA - HISTÓRIA
Obra é biografia de um 'Post' suicida e visionário
Em 'A Cozinha Venenosa', Silvia Bittencourt revela a trajetória heroica do jornal alemão que tentou destruir Hitler
LUÍS FRANCISCO CARVALHO FILHODA EQUIPE DE ARTICULISTAS

O "Münchener Post" descobriu em 1920 "um senhor chamado Hitler". Desde então, até desaparecer, cinco meses depois da ascensão do Führer, em 1933, o jornal participaria de um enfrentamento suicida e visionário.

O livro de Silvia Bittencourt é o primeiro a contar uma história heroica e surpreendente. Tem como cenário a deterioração econômica, partidos de direita e esquerda organizando milícias, o poder público debilitado, a escalada da violência.

Por que o "Münchener Post" ficou tanto tempo esquecido? Ron Rosenbaum, ao registrar em 1998 esta lacuna na história do jornalismo, lembra ser mais reconfortante para a autoestima alemã acreditar que ninguém realmente sabia quem era Hitler até ele assumir o poder.
O "Post" sabia. Criado pela social-democracia alemã, com mais de meio século de militância, o jornal tentou abater Hitler no nascedouro.

É uma coleção dramática de episódios até a destruição total das suas instalações: confrontos verbais, agressões físicas, ameaças, pequenos atentados, censura, interdições, processos, invasões, empastelamentos.

A partir da aparição nas cervejarias de Munique, o jornal atacou Hitler por todos os lados. Ridicularizou seu estilo. Investigou seu jeito de viver. Cuidou do seu guarda-costas, das suas roupas. Denunciou crimes e a matança de adversários.

No apêndice do livro, onde estão traduzidos seis artigos originais do jornal, é possível ler, por exemplo, o texto no qual o "Post" antecipou a "solução final da questão judaica", em 1931.

O título, "A Cozinha Venenosa", é uma das maledicências de Hitler dirigidas ao jornal, "judeu e marxista".

"Münchener Pest", esbravejavam os nazistas, tratados como criminosos,e não agentes políticos, por jornalistas destemidos como Martin Gruber e Edmund Goldschagg.

Se a tiragem do jornal era modesta (15 mil exemplares em 1932), seu engajamento partidário (alguns de seus colaboradores seriam personagens importantes do jogo político: Kurt Eisner, após proclamar a República da Baviera e ser seu chanceler, foi assassinado em 1919, horas antes de o futuro editor Erhard Auer sofrer um atentado) tornaria o conflito mais intenso.

Silvia Bittencourt vasculhou arquivos alemães e mostra a desenvoltura de Hitler em busca do poder, usufruindo da desintegração institucional do país, da inanição da polícia e dos tribunais.

Soaria estranha hoje a exploração sensacionalista do suicídio da sobrinha de Hitler pelo jornal.

Contra um princípio programático do próprio partido, pela descriminalização da homossexualidade, o "Post" divulgaria intrigas e chantagens em torno do comportamento de Ernst Röhm, comandante do exército privado de Hitler: o nacional-socialismo era "um depósito de doentes e homossexuais" prestes a vencer.

Hitler era tangível e vulnerável, acreditava o "Münchener Post". Para destruí-lo, valia tudo.

A COZINHA VENENOSA - UM JORNAL CONTRA HITLER
AUTORA
 Silvia Bittencourt
EDITORA
 Três Estrelas
QUANTO
 R$ 49,90 (374 págs.)
AVALIAÇÃO
 ótimo

quinta-feira, 20 de junho de 2013

"Abaixo a Ditadura", José Dirceu e Vladimir Palmeira


Não é um livro sobre Jornalismo. Mas tem tudo a ver. Especialmente nesses tempos de manifestações de estudantes (junho de 2013). Sem mais delongas. E Vladimir Palmeira é hoje professor e meu companheiro de Faculdade.

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quarta-feira, 19 de junho de 2013

Livros da Eliane Brum são verdadeiras aulas de Jornalismo


Especialmente para meus alunos e ex-alunos. Acabo de ler o delicioso "A vida que ninguém vê", de Eliane Brum, uma das melhores repórteres do Brasil (se não for a melhor, incluindo aí os homens). Esse livro é antigo, de 2006, mas só agora consegui ler. Li também "O olho da rua".


Aulas de jornalismo na veia.

Curioso que na página 190 deo "A vida que ninguém vê", ela escreve: "(...) tenho a pretensão de que este livro seja lido nas faculdades de Jornalismo (com J caixa alta". Esse vai ser; o "Olho da rua" foi lido para os meus alunos há alguns dias. Alguns trechos, claro. Na página 195, Eliana diz que teve um Mestre (de verdade, não de "papel passado") na faculdade, Marques Leonam (seu parente, Mestre Carlos Leonam?). O cara dizia pra ela: "Lei Leonam número um: repórter não tem o direito de ser ingênuo.Lei Leonam número dois: repórter não tem o direito de ser ingênuo".

Caracolis! Este humilde jornalista e prof que escreve estas mal traçadas diz isso há anos. Tomara que algum ex-aluno aqui se lembre disso. E olha que estou muito longe de ser o Eliane Brum de calça comprida. No posfácio outro Mestre de verdade, Ricardo Kotscho, escreve sobre Eliane: "Escalada para cobrir a inauguração do primeiro Mc Donald´s de Porto Alegre (...) Eliane encontrou o primeiro filão que a diferenciaria dos outros repórteres. Em vez de fazer o registro burocrático habitual, ela puxou conversa com os aposentados que frequentavam a praça (...). Eliana procurava fugir da vala comum da pauta, cavando sua própria história".

Muitas vezes meus alunos me perguntam: "O que é um bom repórter?", "O que é um bom texto?". É Eliane Brum. Como no exemplo da página abaixo.


Tem outro livro da Eliane que não li e que não consigo encontrar, "Coluna Prestes, o avesso da lenda" (esgotado).


E outro que vai sair agora no final do mês de junho (escrevo em 19 de junho de 2013) e que já encomendei pela internet, "A menina quebrada".




segunda-feira, 17 de junho de 2013

"Coluna Prestes, o avesso da lenda", Eliane Brum

Sou fã do trabalho da Eliane Brum. Li "O olho da rua" (e destaco para os meus alunos em minhas aulas), estou lendo "A vida que ninguém vê" e encomendei "A menina quebrada", que vai ser lançado no final de junho. Esse "Coluna Prestes, o avesso da lenda" é mais antigo, está esgotado e não encontro em lugar algum. Se alguém tive alguma dica de como adquirir esse livro, agradeço. Não li, mas recomendo. Pelo bom texto da Eliane. Mas pelo que apurei, é um livro polêmico. Talvez por isso esteja sumido? Mas este Blog é imparcial. Será?


domingo, 16 de junho de 2013

"Os novos escribas", Solano Nascimento. Jornalismo Investigativo ou Jornalismo sobre investigações?


Comecei a ler e estou gostando. E ganhou Prêmio Esso. Não é pouca coisa. Leia sinopse abaixo (publicada no site da Livraria da Travessa):

“´Há uma grande diferença entre descobrir uma irregularidade e descobrir que alguém descobriu uma irregularidade`”, avisa Solano Nascimento na frase de abertura deste livro provocador. Ele está se referindo a uma transformação silenciosa – e maléfica – que ocorre no jornalismo dito investigativo no Brasil: não é mais o próprio repórter que desvenda as maracutaias e falcatruas, mas autoridades que têm a obrigação de fazer isso, como policiais, promotores, procuradores e outros agentes de órgãos de fiscalização. Ao jornalista cabe apenas ter acesso àquela fita, ao tal dossiê, ao vídeo comprometedor.

Para detectar essa tendência, o autor observou a cobertura jornalística dos escândalos políticos nas três principais revistas semanais do país – Veja, IstoÉ e Época – em todos os anos em que houve disputa presidencial desde a redemocratização, da eleição de Fernando Collor de Mello, em 1989, à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006.


Com apuro científico e analítico, Solano Nascimento demonstra que a transformação do “jornalismo investigativo” no que ele chama de “jornalismo sobre investigações” é uma realidade incômoda. Ao abrir mão de investigar por si mesmo, o jornalista fica mais vulnerável ao risco de ser usado pela fonte que passa a informação e pode perder o controle sobre o próprio trabalho. Em outras palavras, o repórter deixa de ser um autor para se tornar um escriba, aquele que resigna a reproduzir a obra dos outros – o que é ruim para a imprensa, e terrível para a sociedade."

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sábado, 15 de junho de 2013

Eliane Brum em dose dupla: "A vida que ninguém vê" e "A menina quebrada"

Eliane Brum é uma das melhores repórteres da nova geração brasileira. Se não for a melhor de todas as gerações. Li "O olho da rua" (veja AQUI), estou lendo "A vida que ninguém vê" e vou ler em breve "A menina quebrada". Especial para quem gosta de bom texto e para quem gosta de bom Jornalismo. E para quem gosta de repórter que tem um outro olhar.




"Morrer de prazer. Crônicas da vida por um fio", Ruy Castro

Não é bem um livro de Jornalismo, mas crônicas têm tudo a ver com Jornalismo. E Ruy Castro dispensa apresentações. Li em um dia. Destaco uma das crônicas, "Prazeres da ´melhor idade`", que reproduzo abaixo.



Para ler é só passar a mãozinha

Livro digital e Jornalismo: o novo casamento na Mídia


Para ler é só passar a mãozinha nas imagens

Deu hoje no Globo. Interessante. Recomendo a leitura.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

"David Ogilvy: a origem da publicidade moderna", de João Renha


Tenho essa mania: leio um livro e, dependendo do autor, do tema e da bibliografia, passo a ler outros livros que tenham a ver com o assunto. Como esse aí do mesmo autor de "A propaganda brasileira depois de Washinton Olivetto" (ver post abaixo). Este Blog tem o título de Livros de Jornalismo, mas Publicidade tem tudo a ver com Jornalismo. Não é preciso dizer. Para saber mais, veja essa entrevista do professor João Renha ao site da Rede Globo. Clique AQUI.

"Técnica de redação. O que é preciso saber para bem escrever", Lucília H. do Carmo Garcez


Vale o mesmo comentário do post acima: "Tenho essa mania: leio um livro e, dependendo do autor, do tema e da bibliografia, passo a ler outros livros que tenham a ver com o assunto. Como esse aí do mesmo autor de "A propaganda brasileira depois de Washinton Olivetto" (ver post abaixo). Este Blog tem o título de Livros de Jornalismo, mas Publicidade tem tudo a ver com Jornalismo. "

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quinta-feira, 30 de maio de 2013

"A propaganda brasileira depois de Washington Olivetto", João Renha


Tô lendo. Bom para cacete. recomendo. Olivetto é o cara da Publicidade. Obrigado, professor Fernando Sá, da Facha e da PUC.

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quarta-feira, 29 de maio de 2013

"Gracias a la vida", Cid Benjamin

Meu querido amigo Cid Benjamin acaba de escrever suas tão esperadas memórias. O livro já está na editora. Estou lendo os originais e adorando. O prefácio é de outro querido amigo, Milton Temer. O Dia já publicou matéria sobre o livro. Para ler, clique AQUI. O Estadão também. Reproduzo abaixo. Assim que sair, aviso.

Foto: Eduardo Sarmento (publicada em O Dia)

Autobiografia de um torturado

Em ‘Gracias a la Vida’, Cid Benjamin, veterano da guerrilha e ex-petista, diz que oficiais torturadores admiravam presos políticos

WILSON TOSTA

Exatos 43 anos atrás, no Dia de Tiradentes de 1970, perto das 19h30, Paulo Alves, 21 anos, óculos para miopia, 1,71m de altura, entrou com uma pastinha de plástico preto em uma padaria na esquina das Ruas Vilela Tavares e Dias da Cruz, no Méier, no subúrbio carioca. Recostado ao balcão, depois de pedir um guaraná e, ironicamente, um sonho, preparou-se para esperar alguém que logo deveria chegar ao ponto de ônibus a alguns metros dali, para tratar de assunto urgente. Perto dele, um homem passado dos 30 o observava. Em frente, alguns rapazes - barbudos, cabeludos, de bermudas - conversavam, animados, em uma sorveteria, parecendo aproveitar o fim do dia sem trabalho para relaxar. Subitamente, porém, todas essas fantasias se desfizeram: o grupo atravessou a via às pressas, Alves tentou pegar algo na pasta, o homem que o olhava lhe deu uma gravata por trás gritando: "Tá em cana!". E as coisas começaram a acontecer muito rapidamente para todos.
Mais de 30 anos depois, Cid Benjamin volta à solitária do Dops para fotografias - Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão
Mais de 30 anos depois, Cid Benjamin volta à solitária do Dops para fotografias
Primeiro, o preso, impossibilitado de tirar da pastinha a pistola Colt 45 que carregava, com um golpe de judô - era campeão brasileiro juvenil do esporte - jogou sobre o ombro o homem que o agarrara, o major Moacir Fontenelle, que desabou sobre o balcão. Os tais jovens - todos agentes à paisana do DOI-Codi do I Exército - atacaram o preso com coronhadas de fuzil, socos e pontapés. E Alves - nascido Cid de Queiroz Benjamin, um dos guerrilheiros mais procurados do País, chefe da Frente de Trabalho Armado (FTA) do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8) - lutou, segundo seus captores (cujas ordens eram pegá-lo vivo), por 20 minutos. No fim, coberto de sangue, foi jogado em um carro, algemado e levado em meio a gritos de vitória dos repressores. Para trás ficou a padaria destruída e um agente com dentes quebrados, socorrido no Hospital Central do Exército (HCE).
A cena abre Gracias a la Vida, autobiografia em que Cid, hoje jornalista, professor e escritor, acaba de dar o ponto final. Nela, o ex-guerrilheiro, um dos fundadores do PT e atualmente crítico duro do partido e seus governos, se dedica a "mexer em casas de marimbondos" enquanto recorda sua vida e reflete sobre a política, atacando crenças da esquerda - algumas opostas a outras. "Vou levar porrada de todo lado", diz, entre divertido e conformado, ao lembrar sua trajetória sob a ditadura militar (1964-1985), quando participou do sequestro do embaixador dos EUA, Charles Elbrick. "Vou levar porrada do Tortura Nunca Mais; vou levar porrada dos marighellistas; vou levar porrada das viúvas da luta armada; vou levar porrada dos prestistas; vou levar porrada do PT; e vou levar porrada do PSOL."
Em tempo de Comissão da Verdade, uma das "casas de marimbondo" em que Cid mexe é a sua constatação de que a tortura, que sofreu durante seu primeiro período no DOI, no quartel da Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, não foi praticada apenas por psicopatas sádicos e jovens militares extremistas da Guerra Fria, mas também por cidadãos "normais". Eram bons maridos, pais amorosos, vizinhos simpáticos, mas que tinham no suplício e até assassinato de seus semelhantes sua "rotina" profissional - impossível não lembrar a descrição de burocrata banal feita por Hannah Arendt (1906-1975) para o criminoso nazista Adolph Eichmann (1906-1962). Verdugos que, em alguns casos, se permitiam até sinais de admiração por suas vítimas, pela coragem que demonstravam diante da dor, embora não deixassem, claro, de fazê-las sofrer mais.
"Não quero que pareça que estou humanizando o torturador. O fato de um ou outro torturador não ser um monstro é mais grave: pessoas normais são capazes de torturar", diz Cid, tão torturado no DOI que reconhecia o suplício pelo tipo de gemido da vítima.
Polêmico? Pois fica ainda mais quando Cid se recorda no livro de um oficial do DOI, cujo nome preserva, que, em 17 de junho de 1970, no avião que levava para Argel os 40 presos políticos libertados em troca do embaixador Ehrenfried Von Holleben, da Alemanha Ocidental, sequestrado pela guerrilha urbana, sentou-se a seu lado. Em certo momento, disse mais ou menos o seguinte: "Você viu que não participei dos teus interrogatórios. Sou muito violento e gostei de você. Eu te respeito". Já na capital argelina, outro ex-preso, Apolônio de Carvalho, do PCBR, cuja bravura no enfrentamento dos verdugos era venerada na guerrilha, contou-lhe outro episódio envolvendo o mesmo oficial. Um dia, ele quis tirar Apolônio da cela para algo que era proibido para os presos: um banho de sol de uma hora.
"Você é mais velho, está machucado, e eu respeito a tua coragem", disse o torturador, antes que o dirigente do PCBR, diante da informação de que só ele teria o benefício, recusasse o privilégio. Para o autor, o gesto do militar era sinal claro de admiração pela coragem de Apolônio, típica da formação militar (o pai de Cid era do Exército). "Como se (o torturador) dissesse: ‘O cara é inimigo, se for o caso vou matá-lo, mas eu o respeito."
Cid avalia que, quando foi preso, o sistema de repressão ainda não se profissionalizara totalmente. Isso permitia que se desenvolvessem relações pessoais entre torturadores e alguns torturados, uma espécie de elite dos presos políticos. "Era o cara que vinha e dizia: ‘Olha, você é um cara legal, não vou perguntar nada que leve à prisão de alguém. Tudo bem?’", narra ele. Havia ainda recrutas que conversavam com os presos e identificaram torturadores pelos nomes.
O ex-guerrilheiro também surpreende ao falar do médico Amilcar Lobo, que participou das torturas e foi demonizado pelas esquerdas. "Considero que, nessa ocasião, nossa postura em relação a Lobo foi errada politicamente, além de ter sido desumana", diz, no livro. "Houve algo de vendeta em nosso comportamento. Lobo já era um farrapo e, ainda assim, foi acossado. Teria sido mais humano, e mais produtivo do ponto de vista de se desvendar o que aconteceu nos porões da ditadura, se lhe houvéssemos estendido a mão, compreendêssemos sua angústia e o amparássemos." Isso apesar de ter tido pontos na cabeça costurados sem anestesia pelo médico - no DOI, Dr. Carneiro -, que também lhe administrou pentotal na tentativa de fazê-lo abrir informações.
"Os torturadores devem ser punidos", insiste Cid. "Eu numa boa anistiaria quem me torturou. Só não anistiaria porque o futuro da tortura está ligado ao futuro do torturador. É uma questão política, não pessoal."
Não que o jornalista releve tudo. No livro, ele recorda que em 1989, no segundo turno das eleições presidenciais, bebia com amigos no Bar Amarelinho, na Cinelândia, no Centro do Rio, e precisou ir ao banheiro. Lá, no mictório, encontrou o policial Luiz Timóteo, torturador que se jactava de dar choques nos pênis dos presos. Dezenove anos antes, submetera o autor ao tratamento.
"Ficamos os dois, lado a lado, no mictório. Não havia mais ninguém. Olhei fixamente para seus olhos e perguntei: ‘Está lembrado de mim, Timóteo? Sou o Cid.’
‘Estou, sim’, ele respondeu, visivelmente receoso do que eu pudesse fazer.
‘Quem diria, hein. Você cansou de me dar choques no pau e, agora, o Lula vai ser eleito presidente da República.’
‘Vamos ver, vamos ver’, disse, cauteloso.
‘As coisas mudam, não é?’, retruquei, antes de voltar para a minha mesa."
Para as "viúvas da luta armada", Cid reservou uma avaliação de que o caminho da guerrilha foi um equívoco, pela impossibilidade de vitória. Mas não deixou de admitir que o sequestro de Elbrick foi um "gol de placa". E revela detalhes novos sobre o caso. Em meio à ação, conta, recebeu o apoio do pai, o oficial do Exército da reserva Nei Benjamin, janguista não ativo, que lhe enviou sua pistola de oficial, com a numeração raspada. Depois, quando foi preso (e, mais tarde, seu irmão César), Nei usou seus contatos militares para ajudá-los. Furtou na Bahia uma ficha que comprovava a prisão de César e, quando Cid estava no Dops, apoiou-o quando resistia a assinar depoimentos, dizendo-se orgulhoso de seu comportamento.
A recusa mandou Cid para a solitária, o "ratão", cela estreita, onde só podia dormir na diagonal e à qual voltou mais de 30 anos depois, para fotografias. Mesmo preso no Dops, ajudou a elaborar a lista de presos a serem libertados em troca de Holleben (recebeu o pedido de nomes em um maço de cigarros). Já esperava o sequestro - o MR-8 preparava a ação, que acabou executada pela Ação Libertadora Nacional (ALN) e pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). No exterior, passou nove anos e três meses por Argélia, Cuba (onde treinou guerrilha), Chile (de onde saiu depois do golpe), México e Suécia.
Assumidamente emocional, Cid revela no livro que chorou no dia do último comício de Lula em 1989 e de novo no dia da posse do presidente, em 2003, embora àquela altura já não acreditasse no velho PT. Poucos anos depois, porém, ao investigar o assassinato do prefeito petista de Santo André, Celso Daniel, e obter informações que levavam a um esquema de corrupção ligado ao partido e a outros homicídios, não reconheceu o partido que ajudara a construir.
"Contei a dois amigos de confiança - ambos do PT, diga-se - o que tinha apurado", relata, no livro. "Eles ficaram estupefatos. De um deles veio a sugestão: que eu gravasse as informações em CDs, os distribuísse para amigos, deixando claro que, se me acontecesse algo estranho - como morrer em um assalto na rua, por exemplo - as informações viriam à tona. Um terceiro amigo, também do PT, tinha audiência com um ministro todo-poderoso daí a alguns dias. Pedi que ele lhe desse o recado, o que foi feito (...) Não deixou de ser surpresa quando soube que a resposta tinha sido: ‘Tudo bem’. Confesso que esperava algum tipo de protesto. A advertência que fiz era também uma insinuação."
Cid ressalta que não acredita em participação da cúpula do PT nos homicídios. Faz, porém uma impiedosa crítica ao partido.
"O PT diz que seus governos são melhores que os anteriores. É verdade", afirma. "Mas não contribuem para a transformação social." Para Cid, durante os governos petistas "a política se avacalhou mais". "Mesmo o pessoal que vota na Dilma tem uma percepção pior da política, de malandragem, de sacanagem... O ciclo do PT pode ter se esgotado", analisa o agora militante do PSOL.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

"Webjornalismo: política e jornalismo em tempo real", Juliano Borges


É um pouco antigo pro tema (de 2009) mas vale a pena conferir. Leitura simples, boas informações, embora datadas. Mas como estou lendo ou relendo vários livros sobre o assunto, recomendo. Para saber mais, clique AQUI.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

"A informação: uma história, uma teoria, uma enxurrada", James Gleick



Parece interessante. Apesar dessa palavra que me causa calafrios: TEORIA. A conferir. Deu hoje no Globo.

sábado, 18 de maio de 2013

Hemingway em português nos e-books gera polêmica entre editoras

Deu hoje no caderno "Ilustrada" da Folha de S. Paulo.



Editora de Hemingway nos EUA vende e-books no Brasil, sob protestos de grupo nacional

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CASSIANO ELEK MACHADO
DE SÃO PAULO


Se Ernest Hemingway se notabilizou por frequentar os territórios mais inóspitos do mundo, sua obra agora enfrenta, com percalços, um terreno igualmente duro: a internet brasileira.
A edição de livros digitais do escritor norte-americano (1899-1961) em português está colocando em conflito um dos maiores grupos editoriais do país, a Record, e uma gigante dos Estados Unidos, a editora Simon & Schuster.
Os campos de batalha são variados: entre eles, as lojas brasileiras da Amazon e da Apple e o site da Livraria Cultura. Até o fechamento desta edição, as três vendiam para o território nacional mais de uma versão digital em português de obras de Hemingway, as da editora Bertrand Brasil e as da americana Scribner.

"Dentro do território brasileiro, a Bertrand Brasil tem a exclusividade de publicar a obra. Eles não poderiam fazer isso", diz Sérgio França, responsável pela área digital do grupo Record (do qual faz parte a Bertrand).

Há duas semanas, a empresa notificou livrarias, como a Amazon brasileira, que chegou a suspender temporariamente a venda de e-books de clássicos como "O Velho e o Mar" com o selo da editora Scribner (parte do grupo Simon & Schuster).
Mas as vendas voltaram dias depois. O leitor nacional pode comprar atualmente, por exemplo, o romance "Por Quem os Sinos Dobram" na versão da Bertrand Brasil (tradução de Luiz Peazê) por R$ 41 e na do selo Scribner (com tradução de Monteiro Lobato) por R$ 20,39.

"Vamos voltar a notificar todos os que estão vendendo e tomar as devidas medidas", diz a diretora editorial da Bertrand Brasil, Rosemary Alves.
Procurado pela Folha sete vezes, desde o início de maio, por e-mail e por telefone, o diretor responsável pela área de direitos autorais da Scribner, Paul O'Halloran, não respondeu a nenhuma pergunta. Em sua única mensagem, questionou: "Posso saber por que você pergunta?".

HEMINGWAY BÚLGARO
Com as 12 obras de Hemingway à venda em português, é a primeira vez que o selo Scribner, fundado em 1846 e editora original de autores como Scott Fitzgerald, lança livros neste idioma.
Hemingway foi, nos Estados Unidos, o primeiro dos grandes escritores a ter livros digitais à venda, em 2002, pela mesma editora.
Além de vender as obras do autor em português, a mesma Scribner está comercializando pela internet os livros dele em búlgaro.


"Este episódio mostra que, com o digital, editoras de um país podem vender diretamente traduções de seus livros em outros países", diz Carlo Carrenho, consultor e diretor do site PublishNews.
"O maior problema para uma editora vender seus livros impressos em outro país sempre foi a distribuição física. No digital, isso cai e o grande custo é o da tradução", acrescenta ele.
No caso da Scribner, porém, ela vende traduções já existentes, como as feitas por Lobato e pelo também escritor Jorge de Sena, já publicadas em Portugal pela editora Livros do Brasil, que confirmou à Folha ter feito acordo com a editora americana.
Mas a venda da edição portuguesa, em versões impressas e digitais, seria ilegal, porque, segundo a Record, o contrato deles prevê exclusividade territorial.
"Não é comum que se convencione a possibilidade de venda do mesmo livro por mais de uma editora em um só território", diz o advogado especializado em direitos autorais Luiz Henrique Souza. "Pode estar ocorrendo edição fraudulenta."
"Esse é um tema fascinante, e que em direito é chamado de importação paralela", diz Ronaldo Lemos, fundador do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas, no Rio, e colunista da Folha. Para ele, "se a empresa brasileira decidir resolver a questão legalmente, terá de acionar a Justiça americana".
França, da editora Record, diz que não acredita que o episódio vá tomar este caminho. "Em geral, estes casos acabam sendo resolvidos de maneira cavalheiresca", diz ele, cujo departamento tem lançado 30 e-books por mês.
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TIRE SUAS DÚVIDAS SOBRE EDIÇÃO DIGITAL
1. Uma obra literária pode ter simultaneamente mais de uma edição num país?
Pode, mas só se as obras do autor estiverem no chamado "domínio público" ou se os contratos não estabelecerem limites territoriais ou exclusividade - o que é muito raro no mercado editorial.
2. Que obras são consideradas de "domínio público"?
Para o direito brasileiro, podem ser publicadas por qualquer editora, em versão impressa ou digital, obras de autores mortos há mais de 70 anos. Hemingway, morto há 51 anos, não se enquadra na regra.
3. Existe alguma lei que impeça editoras estrangeiras de venderem e-books no Brasil em português?
Não existe nenhuma legislação específica que impeça que uma empresa estrangeira distribua e-books com alcance para o mercado brasileiro. Mas as editoras podem e costumam estabelecer limites territoriais quando compram os direitos da obra para um país.
4. A legislação é diferente para e-book ou impresso?
Não. A Lei 9610/98, que regulamenta os direitos autorais, aplica-se ao ambiente digital.
5. O que uma editora prejudicada pode fazer?
Pode procurar a editora original e pedir indenização ou procurar a distribuidora que invadiu o território da outra e solicitar a retirada da obra de circulação.
Fontes: advogados Liana Machado, Luiz Henrique Souza e Ronaldo Lemos