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sábado, 22 de junho de 2013
"O lavrador de Ipanema", Rubem Braga
Se é Rubem Braga é bom. Acabo de ler um anúncio na Folha que a Editora Record publicou um livro "novo" de crônicas do saudoso e genial Rubem Braga. Claro que recomendo. E vou encomendar.
"A cozinha venenosa, um jornal contra Hitler", Silvia Bittencourt
Deu hoje na Folha de S. Paulo. Interessante. Vale conferir. Vou encomendar.
Os inimigos de Hitler
Livro conta pela primeira vez história do jornal
'Münchener Post', maior oponente do nazista na imprensa alemã
CASSIANO ELEK MACHADODE SÃO PAULO
De todos os bilhões de folhas de papel jornal
gastas ao longo da história para tratar de Adolf Hitler, as primeiríssimas
saíram da gráfica de um jornalzinho chamado "Münchener Post".
Numa sexta-feira de maio de 1920, uma nota da seção
"Assuntos de Munique" registrava: "Uma espécie de partido, que
ainda anda de fraldas e aparenta ter saúde bem fraca, vem aparecendo às vezes
em público, sob o nome de Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores
Alemães'. Na terça-feira à noite, um senhor chamado Hitler falou sobre o
programa desse partido'".
A reportagem informava que o tal senhor
"pregou o antissemitismo nos moldes nacionalistas".
Mais do que pioneiro em farejar que era preciso
ficar de olho no rapaz de bigode curto e fala inflamada, o "Post"
converteu-se logo em seu mais encarniçado inimigo na imprensa alemã.
Num livro importante sobre o fenômeno nazista,
"Para Entender Hitler" (Record, 2002), o jornalista norte-americano
Ron Rosenbaum opina: "A batalha travada entre Hitler e os corajosos
repórteres do Post' é um dos grandes dramas nunca relatados da história do
jornalismo".
Uma jornalista brasileira radicada na Alemanha
desde 1991 resolveu a questão. Em "A Cozinha Venenosa - Um Jornal Contra
Hitler", livro que acaba de ser lançado aqui, Silvia Bittencourt, 49,
conta pela primeira vez a história.
Fruto de três anos de trabalho, o volume, lançado
pela editora Três Estrelas (do Grupo Folha), conta em minúcias as batalhas, que
transcenderam as palavras, entre o diário e os nazistas.
Segundo Bittencourt, e a julgar pelo que relata
Rosenbaum, não há nem na Alemanha livros sobre o "Post".
"Aqui ninguém conhece o Münchener Post', nem
mesmo os políticos sociais-democratas atuais", diz a autora, em referência
ao partido político alemão que criou o jornal, no final dos anos 1880.
ASCENSÃO
A pesquisa de Bittencourt se desenvolveu em
especial em arquivos e bibliotecas de Munique, cidade na qual o austríaco Adolf
(1889-1945) se estabeleceu em 1913.
Depois de ter lutado na Primeira Guerra Mundial,
entre 1914 e 1918, o até então artista frustrado encontra nos fundos de uma
cervejaria no centro da cidade, em 1919, uma reunião de um pequeno partido
trabalhador, onde começaria sua trajetória.
"De um desocupado, sem formação ou profissão
alguma, Hitler se tornou, em poucos meses, uma estrela em Munique", diz
Bittencourt.
Ao contar a trajetória do "Münchener
Post", ela narra em detalhes a ascensão de Hitler e do partido, que saltou
dos 200 filiados do final de 1919 aos 4 milhões de membros em 30 de janeiro de
1933, quando Hitler foi nomeado chanceler alemão.
O "Post" não duraria então mais do que 40
dias. Embora já tivesse sobrevivido a incontáveis atentados nazistas, o de 9 de
março foi o final.
"Destroçaram os equipamentos de produção do
jornal, como os linotipos. Colocaram barras de ferro nas engrenagens das
prensas rotativas, a fim de impedir que elas voltassem a ser usadas, e lançaram
os grandes barris de tinta de impressão sobre as calçadas", relata a
autora.
O pequeno grupo de jornalistas que produzia o
diário, que à época tinha dez páginas diárias e modestos 15 mil exemplares, não
estava na Redação. Quase todos escaparam, um deles cruzando os Alpes a pé.
Outros não tiveram a mesma sorte.
O editor de cultura, Julius Zerfass, foi um dos
primeiros encarcerados no campo de concentração de Dachau, do qual seria solto
no fim do ano.
"A Cozinha Venenosa", título do livro,
era a maneira pela qual Hitler se referia ao jornal. No glossário do ditador,
"veneno" era um termo usado para o mais abominável.
O jornal retribuía chamando o nazista de
"arremessador piolhento de lama" ou classificando seu partido, já em
1923, como "o bacilo venenoso mais perigoso que o corpo do povo vem
carregando consigo". Como diz Rosenbaum, se houve alguém na história que
pode dizer "eu avisei" foram os repórteres do "Post",
primeiros "a tentar alertar o mundo para a natureza da besta feroz que
rastejava em direção a Berlim".
CRÍTICA - HISTÓRIA
Obra é biografia de um 'Post' suicida
e visionário
Em 'A Cozinha Venenosa', Silvia Bittencourt revela
a trajetória heroica do jornal alemão que tentou destruir Hitler
LUÍS FRANCISCO CARVALHO FILHODA
EQUIPE DE ARTICULISTAS
O "Münchener Post" descobriu em 1920
"um senhor chamado Hitler". Desde então, até desaparecer, cinco meses
depois da ascensão do Führer, em 1933, o jornal participaria de um
enfrentamento suicida e visionário.
O livro de Silvia Bittencourt é o primeiro a contar
uma história heroica e surpreendente. Tem como cenário a deterioração
econômica, partidos de direita e esquerda organizando milícias, o poder público
debilitado, a escalada da violência.
Por que o "Münchener Post" ficou tanto
tempo esquecido? Ron Rosenbaum, ao registrar em 1998 esta lacuna na história do
jornalismo, lembra ser mais reconfortante para a autoestima alemã acreditar que
ninguém realmente sabia quem era Hitler até ele assumir o poder.
O "Post" sabia. Criado pela
social-democracia alemã, com mais de meio século de militância, o jornal tentou
abater Hitler no nascedouro.
É uma coleção dramática de episódios até a
destruição total das suas instalações: confrontos verbais, agressões físicas,
ameaças, pequenos atentados, censura, interdições, processos, invasões,
empastelamentos.
A partir da aparição nas cervejarias de Munique, o
jornal atacou Hitler por todos os lados. Ridicularizou seu estilo. Investigou
seu jeito de viver. Cuidou do seu guarda-costas, das suas roupas. Denunciou
crimes e a matança de adversários.
No apêndice do livro, onde estão traduzidos seis
artigos originais do jornal, é possível ler, por exemplo, o texto no qual o
"Post" antecipou a "solução final da questão judaica", em
1931.
O título, "A Cozinha Venenosa", é uma das
maledicências de Hitler dirigidas ao jornal, "judeu e marxista".
"Münchener Pest", esbravejavam os
nazistas, tratados como criminosos,e não agentes políticos, por jornalistas
destemidos como Martin Gruber e Edmund Goldschagg.
Se a tiragem do jornal era modesta (15 mil
exemplares em 1932), seu engajamento partidário (alguns de seus colaboradores
seriam personagens importantes do jogo político: Kurt Eisner, após proclamar a
República da Baviera e ser seu chanceler, foi assassinado em 1919, horas antes
de o futuro editor Erhard Auer sofrer um atentado) tornaria o conflito mais
intenso.
Silvia Bittencourt vasculhou arquivos alemães e
mostra a desenvoltura de Hitler em busca do poder, usufruindo da desintegração
institucional do país, da inanição da polícia e dos tribunais.
Soaria estranha hoje a exploração sensacionalista
do suicídio da sobrinha de Hitler pelo jornal.
Contra um princípio programático do próprio
partido, pela descriminalização da homossexualidade, o "Post"
divulgaria intrigas e chantagens em torno do comportamento de Ernst Röhm,
comandante do exército privado de Hitler: o nacional-socialismo era "um
depósito de doentes e homossexuais" prestes a vencer.
Hitler era tangível e vulnerável, acreditava o
"Münchener Post". Para destruí-lo, valia tudo.
A COZINHA VENENOSA - UM JORNAL CONTRA HITLER
AUTORA Silvia Bittencourt
EDITORA Três Estrelas
QUANTO R$ 49,90 (374 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo
AUTORA Silvia Bittencourt
EDITORA Três Estrelas
QUANTO R$ 49,90 (374 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo
quinta-feira, 20 de junho de 2013
"Abaixo a Ditadura", José Dirceu e Vladimir Palmeira
Não é um livro sobre Jornalismo. Mas tem tudo a ver. Especialmente nesses tempos de manifestações de estudantes (junho de 2013). Sem mais delongas. E Vladimir Palmeira é hoje professor e meu companheiro de Faculdade.
Para saber mais, clique AQUI.
quarta-feira, 19 de junho de 2013
Livros da Eliane Brum são verdadeiras aulas de Jornalismo
Especialmente para meus alunos e ex-alunos. Acabo de ler o delicioso "A vida que ninguém vê", de Eliane Brum, uma das melhores repórteres do Brasil (se não for a melhor, incluindo aí os homens). Esse livro é antigo, de 2006, mas só agora consegui ler. Li também "O olho da rua".
Aulas de jornalismo na veia.
Curioso que na página 190 deo "A vida que ninguém vê", ela escreve: "(...) tenho a pretensão de que este livro seja lido nas faculdades de Jornalismo (com J caixa alta". Esse vai ser; o "Olho da rua" foi lido para os meus alunos há alguns dias. Alguns trechos, claro. Na página 195, Eliana diz que teve um Mestre (de verdade, não de "papel passado") na faculdade, Marques Leonam (seu parente, Mestre Carlos Leonam?). O cara dizia pra ela: "Lei Leonam número um: repórter não tem o direito de ser ingênuo.Lei Leonam número dois: repórter não tem o direito de ser ingênuo".
Caracolis! Este humilde jornalista e prof que escreve estas mal traçadas diz isso há anos. Tomara que algum ex-aluno aqui se lembre disso. E olha que estou muito longe de ser o Eliane Brum de calça comprida. No posfácio outro Mestre de verdade, Ricardo Kotscho, escreve sobre Eliane: "Escalada para cobrir a inauguração do primeiro Mc Donald´s de Porto Alegre (...) Eliane encontrou o primeiro filão que a diferenciaria dos outros repórteres. Em vez de fazer o registro burocrático habitual, ela puxou conversa com os aposentados que frequentavam a praça (...). Eliana procurava fugir da vala comum da pauta, cavando sua própria história".
Muitas vezes meus alunos me perguntam: "O que é um bom repórter?", "O que é um bom texto?". É Eliane Brum. Como no exemplo da página abaixo.
Tem outro livro da Eliane que não li e que não consigo encontrar, "Coluna Prestes, o avesso da lenda" (esgotado).
E outro que vai sair agora no final do mês de junho (escrevo em 19 de junho de 2013) e que já encomendei pela internet, "A menina quebrada".
segunda-feira, 17 de junho de 2013
"Coluna Prestes, o avesso da lenda", Eliane Brum
Sou fã do trabalho da Eliane Brum. Li "O olho da rua" (e destaco para os meus alunos em minhas aulas), estou lendo "A vida que ninguém vê" e encomendei "A menina quebrada", que vai ser lançado no final de junho. Esse "Coluna Prestes, o avesso da lenda" é mais antigo, está esgotado e não encontro em lugar algum. Se alguém tive alguma dica de como adquirir esse livro, agradeço. Não li, mas recomendo. Pelo bom texto da Eliane. Mas pelo que apurei, é um livro polêmico. Talvez por isso esteja sumido? Mas este Blog é imparcial. Será?
domingo, 16 de junho de 2013
"Os novos escribas", Solano Nascimento. Jornalismo Investigativo ou Jornalismo sobre investigações?
Comecei a ler e estou gostando. E ganhou Prêmio Esso. Não é pouca coisa. Leia sinopse abaixo (publicada no site da Livraria da Travessa):
“´Há uma grande diferença entre descobrir uma irregularidade
e descobrir que alguém descobriu uma irregularidade`”, avisa Solano Nascimento
na frase de abertura deste livro provocador. Ele está se referindo a uma
transformação silenciosa – e maléfica – que ocorre no jornalismo dito
investigativo no Brasil: não é mais o próprio repórter que desvenda as
maracutaias e falcatruas, mas autoridades que têm a obrigação de fazer isso,
como policiais, promotores, procuradores e outros agentes de órgãos de
fiscalização. Ao jornalista cabe apenas ter acesso àquela fita, ao tal dossiê,
ao vídeo comprometedor.
Para detectar essa tendência, o autor observou a cobertura
jornalística dos escândalos políticos nas três principais revistas semanais do
país – Veja, IstoÉ e Época – em todos os anos em que houve disputa presidencial
desde a redemocratização, da eleição de Fernando Collor de Mello, em 1989, à
reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006.
Com apuro científico e analítico, Solano Nascimento
demonstra que a transformação do “jornalismo investigativo” no que ele chama de
“jornalismo sobre investigações” é uma realidade incômoda. Ao abrir mão de
investigar por si mesmo, o jornalista fica mais vulnerável ao risco de ser
usado pela fonte que passa a informação e pode perder o controle sobre o
próprio trabalho. Em outras palavras, o repórter deixa de ser um autor para se
tornar um escriba, aquele que resigna a reproduzir a obra dos outros – o que é
ruim para a imprensa, e terrível para a sociedade."
Para saber mais, clique AQUI.
sábado, 15 de junho de 2013
Eliane Brum em dose dupla: "A vida que ninguém vê" e "A menina quebrada"
Eliane Brum é uma das melhores repórteres da nova geração brasileira. Se não for a melhor de todas as gerações. Li "O olho da rua" (veja AQUI), estou lendo "A vida que ninguém vê" e vou ler em breve "A menina quebrada". Especial para quem gosta de bom texto e para quem gosta de bom Jornalismo. E para quem gosta de repórter que tem um outro olhar.
"Morrer de prazer. Crônicas da vida por um fio", Ruy Castro
Não é bem um livro de Jornalismo, mas crônicas têm tudo a ver com Jornalismo. E Ruy Castro dispensa apresentações. Li em um dia. Destaco uma das crônicas, "Prazeres da ´melhor idade`", que reproduzo abaixo.
Para ler é só passar a mãozinha
segunda-feira, 3 de junho de 2013
"David Ogilvy: a origem da publicidade moderna", de João Renha
Tenho essa mania: leio um livro e, dependendo do autor, do tema e da bibliografia, passo a ler outros livros que tenham a ver com o assunto. Como esse aí do mesmo autor de "A propaganda brasileira depois de Washinton Olivetto" (ver post abaixo). Este Blog tem o título de Livros de Jornalismo, mas Publicidade tem tudo a ver com Jornalismo. Não é preciso dizer. Para saber mais, veja essa entrevista do professor João Renha ao site da Rede Globo. Clique AQUI.
"Técnica de redação. O que é preciso saber para bem escrever", Lucília H. do Carmo Garcez
Vale o mesmo comentário do post acima: "Tenho essa mania: leio um livro e, dependendo do autor, do tema e da bibliografia, passo a ler outros livros que tenham a ver com o assunto. Como esse aí do mesmo autor de "A propaganda brasileira depois de Washinton Olivetto" (ver post abaixo). Este Blog tem o título de Livros de Jornalismo, mas Publicidade tem tudo a ver com Jornalismo. "
Para saber mais, clique AQUI.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
"A propaganda brasileira depois de Washington Olivetto", João Renha
Tô lendo. Bom para cacete. recomendo. Olivetto é o cara da Publicidade. Obrigado, professor Fernando Sá, da Facha e da PUC.
Para saber mais, clique AQUI.
quarta-feira, 29 de maio de 2013
"Gracias a la vida", Cid Benjamin
Meu querido amigo Cid Benjamin acaba de escrever suas tão esperadas memórias. O livro já está na editora. Estou lendo os originais e adorando. O prefácio é de outro querido amigo, Milton Temer. O Dia já publicou matéria sobre o livro. Para ler, clique AQUI. O Estadão também. Reproduzo abaixo. Assim que sair, aviso.
Foto: Eduardo Sarmento (publicada em O Dia)
Autobiografia de um torturado
Em ‘Gracias a la Vida’, Cid Benjamin, veterano da guerrilha e ex-petista, diz que oficiais torturadores admiravam presos políticos
WILSON TOSTA
Exatos 43 anos atrás, no Dia de Tiradentes de 1970, perto das 19h30, Paulo Alves, 21 anos, óculos para miopia, 1,71m de altura, entrou com uma pastinha de plástico preto em uma padaria na esquina das Ruas Vilela Tavares e Dias da Cruz, no Méier, no subúrbio carioca. Recostado ao balcão, depois de pedir um guaraná e, ironicamente, um sonho, preparou-se para esperar alguém que logo deveria chegar ao ponto de ônibus a alguns metros dali, para tratar de assunto urgente. Perto dele, um homem passado dos 30 o observava. Em frente, alguns rapazes - barbudos, cabeludos, de bermudas - conversavam, animados, em uma sorveteria, parecendo aproveitar o fim do dia sem trabalho para relaxar. Subitamente, porém, todas essas fantasias se desfizeram: o grupo atravessou a via às pressas, Alves tentou pegar algo na pasta, o homem que o olhava lhe deu uma gravata por trás gritando: "Tá em cana!". E as coisas começaram a acontecer muito rapidamente para todos.

Fábio Motta/Estadão
Mais de 30 anos depois, Cid Benjamin volta à solitária do Dops para fotografias
Primeiro, o preso, impossibilitado de tirar da pastinha a pistola Colt 45 que carregava, com um golpe de judô - era campeão brasileiro juvenil do esporte - jogou sobre o ombro o homem que o agarrara, o major Moacir Fontenelle, que desabou sobre o balcão. Os tais jovens - todos agentes à paisana do DOI-Codi do I Exército - atacaram o preso com coronhadas de fuzil, socos e pontapés. E Alves - nascido Cid de Queiroz Benjamin, um dos guerrilheiros mais procurados do País, chefe da Frente de Trabalho Armado (FTA) do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8) - lutou, segundo seus captores (cujas ordens eram pegá-lo vivo), por 20 minutos. No fim, coberto de sangue, foi jogado em um carro, algemado e levado em meio a gritos de vitória dos repressores. Para trás ficou a padaria destruída e um agente com dentes quebrados, socorrido no Hospital Central do Exército (HCE).
A cena abre Gracias a la Vida, autobiografia em que Cid, hoje jornalista, professor e escritor, acaba de dar o ponto final. Nela, o ex-guerrilheiro, um dos fundadores do PT e atualmente crítico duro do partido e seus governos, se dedica a "mexer em casas de marimbondos" enquanto recorda sua vida e reflete sobre a política, atacando crenças da esquerda - algumas opostas a outras. "Vou levar porrada de todo lado", diz, entre divertido e conformado, ao lembrar sua trajetória sob a ditadura militar (1964-1985), quando participou do sequestro do embaixador dos EUA, Charles Elbrick. "Vou levar porrada do Tortura Nunca Mais; vou levar porrada dos marighellistas; vou levar porrada das viúvas da luta armada; vou levar porrada dos prestistas; vou levar porrada do PT; e vou levar porrada do PSOL."
Em tempo de Comissão da Verdade, uma das "casas de marimbondo" em que Cid mexe é a sua constatação de que a tortura, que sofreu durante seu primeiro período no DOI, no quartel da Rua Barão de Mesquita, na Tijuca, não foi praticada apenas por psicopatas sádicos e jovens militares extremistas da Guerra Fria, mas também por cidadãos "normais". Eram bons maridos, pais amorosos, vizinhos simpáticos, mas que tinham no suplício e até assassinato de seus semelhantes sua "rotina" profissional - impossível não lembrar a descrição de burocrata banal feita por Hannah Arendt (1906-1975) para o criminoso nazista Adolph Eichmann (1906-1962). Verdugos que, em alguns casos, se permitiam até sinais de admiração por suas vítimas, pela coragem que demonstravam diante da dor, embora não deixassem, claro, de fazê-las sofrer mais.
"Não quero que pareça que estou humanizando o torturador. O fato de um ou outro torturador não ser um monstro é mais grave: pessoas normais são capazes de torturar", diz Cid, tão torturado no DOI que reconhecia o suplício pelo tipo de gemido da vítima.
Polêmico? Pois fica ainda mais quando Cid se recorda no livro de um oficial do DOI, cujo nome preserva, que, em 17 de junho de 1970, no avião que levava para Argel os 40 presos políticos libertados em troca do embaixador Ehrenfried Von Holleben, da Alemanha Ocidental, sequestrado pela guerrilha urbana, sentou-se a seu lado. Em certo momento, disse mais ou menos o seguinte: "Você viu que não participei dos teus interrogatórios. Sou muito violento e gostei de você. Eu te respeito". Já na capital argelina, outro ex-preso, Apolônio de Carvalho, do PCBR, cuja bravura no enfrentamento dos verdugos era venerada na guerrilha, contou-lhe outro episódio envolvendo o mesmo oficial. Um dia, ele quis tirar Apolônio da cela para algo que era proibido para os presos: um banho de sol de uma hora.
"Você é mais velho, está machucado, e eu respeito a tua coragem", disse o torturador, antes que o dirigente do PCBR, diante da informação de que só ele teria o benefício, recusasse o privilégio. Para o autor, o gesto do militar era sinal claro de admiração pela coragem de Apolônio, típica da formação militar (o pai de Cid era do Exército). "Como se (o torturador) dissesse: ‘O cara é inimigo, se for o caso vou matá-lo, mas eu o respeito."
Cid avalia que, quando foi preso, o sistema de repressão ainda não se profissionalizara totalmente. Isso permitia que se desenvolvessem relações pessoais entre torturadores e alguns torturados, uma espécie de elite dos presos políticos. "Era o cara que vinha e dizia: ‘Olha, você é um cara legal, não vou perguntar nada que leve à prisão de alguém. Tudo bem?’", narra ele. Havia ainda recrutas que conversavam com os presos e identificaram torturadores pelos nomes.
O ex-guerrilheiro também surpreende ao falar do médico Amilcar Lobo, que participou das torturas e foi demonizado pelas esquerdas. "Considero que, nessa ocasião, nossa postura em relação a Lobo foi errada politicamente, além de ter sido desumana", diz, no livro. "Houve algo de vendeta em nosso comportamento. Lobo já era um farrapo e, ainda assim, foi acossado. Teria sido mais humano, e mais produtivo do ponto de vista de se desvendar o que aconteceu nos porões da ditadura, se lhe houvéssemos estendido a mão, compreendêssemos sua angústia e o amparássemos." Isso apesar de ter tido pontos na cabeça costurados sem anestesia pelo médico - no DOI, Dr. Carneiro -, que também lhe administrou pentotal na tentativa de fazê-lo abrir informações.
"Os torturadores devem ser punidos", insiste Cid. "Eu numa boa anistiaria quem me torturou. Só não anistiaria porque o futuro da tortura está ligado ao futuro do torturador. É uma questão política, não pessoal."
Não que o jornalista releve tudo. No livro, ele recorda que em 1989, no segundo turno das eleições presidenciais, bebia com amigos no Bar Amarelinho, na Cinelândia, no Centro do Rio, e precisou ir ao banheiro. Lá, no mictório, encontrou o policial Luiz Timóteo, torturador que se jactava de dar choques nos pênis dos presos. Dezenove anos antes, submetera o autor ao tratamento.
"Ficamos os dois, lado a lado, no mictório. Não havia mais ninguém. Olhei fixamente para seus olhos e perguntei: ‘Está lembrado de mim, Timóteo? Sou o Cid.’
‘Estou, sim’, ele respondeu, visivelmente receoso do que eu pudesse fazer.
‘Quem diria, hein. Você cansou de me dar choques no pau e, agora, o Lula vai ser eleito presidente da República.’
‘Vamos ver, vamos ver’, disse, cauteloso.
‘As coisas mudam, não é?’, retruquei, antes de voltar para a minha mesa."
Para as "viúvas da luta armada", Cid reservou uma avaliação de que o caminho da guerrilha foi um equívoco, pela impossibilidade de vitória. Mas não deixou de admitir que o sequestro de Elbrick foi um "gol de placa". E revela detalhes novos sobre o caso. Em meio à ação, conta, recebeu o apoio do pai, o oficial do Exército da reserva Nei Benjamin, janguista não ativo, que lhe enviou sua pistola de oficial, com a numeração raspada. Depois, quando foi preso (e, mais tarde, seu irmão César), Nei usou seus contatos militares para ajudá-los. Furtou na Bahia uma ficha que comprovava a prisão de César e, quando Cid estava no Dops, apoiou-o quando resistia a assinar depoimentos, dizendo-se orgulhoso de seu comportamento.
A recusa mandou Cid para a solitária, o "ratão", cela estreita, onde só podia dormir na diagonal e à qual voltou mais de 30 anos depois, para fotografias. Mesmo preso no Dops, ajudou a elaborar a lista de presos a serem libertados em troca de Holleben (recebeu o pedido de nomes em um maço de cigarros). Já esperava o sequestro - o MR-8 preparava a ação, que acabou executada pela Ação Libertadora Nacional (ALN) e pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). No exterior, passou nove anos e três meses por Argélia, Cuba (onde treinou guerrilha), Chile (de onde saiu depois do golpe), México e Suécia.
Assumidamente emocional, Cid revela no livro que chorou no dia do último comício de Lula em 1989 e de novo no dia da posse do presidente, em 2003, embora àquela altura já não acreditasse no velho PT. Poucos anos depois, porém, ao investigar o assassinato do prefeito petista de Santo André, Celso Daniel, e obter informações que levavam a um esquema de corrupção ligado ao partido e a outros homicídios, não reconheceu o partido que ajudara a construir.
"Contei a dois amigos de confiança - ambos do PT, diga-se - o que tinha apurado", relata, no livro. "Eles ficaram estupefatos. De um deles veio a sugestão: que eu gravasse as informações em CDs, os distribuísse para amigos, deixando claro que, se me acontecesse algo estranho - como morrer em um assalto na rua, por exemplo - as informações viriam à tona. Um terceiro amigo, também do PT, tinha audiência com um ministro todo-poderoso daí a alguns dias. Pedi que ele lhe desse o recado, o que foi feito (...) Não deixou de ser surpresa quando soube que a resposta tinha sido: ‘Tudo bem’. Confesso que esperava algum tipo de protesto. A advertência que fiz era também uma insinuação."
Cid ressalta que não acredita em participação da cúpula do PT nos homicídios. Faz, porém uma impiedosa crítica ao partido.
"O PT diz que seus governos são melhores que os anteriores. É verdade", afirma. "Mas não contribuem para a transformação social." Para Cid, durante os governos petistas "a política se avacalhou mais". "Mesmo o pessoal que vota na Dilma tem uma percepção pior da política, de malandragem, de sacanagem... O ciclo do PT pode ter se esgotado", analisa o agora militante do PSOL.
segunda-feira, 27 de maio de 2013
"Webjornalismo: política e jornalismo em tempo real", Juliano Borges
É um pouco antigo pro tema (de 2009) mas vale a pena conferir. Leitura simples, boas informações, embora datadas. Mas como estou lendo ou relendo vários livros sobre o assunto, recomendo. Para saber mais, clique AQUI.
sexta-feira, 24 de maio de 2013
"A informação: uma história, uma teoria, uma enxurrada", James Gleick
Parece interessante. Apesar dessa palavra que me causa calafrios: TEORIA. A conferir. Deu hoje no Globo.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
Livros sobre novas tecnologias em Jornalismo: "Jornalismo on-line: modos de fazer", Carla Rodrigues
Recomendadíssimo. Carla Rodrigues é do ramo e a Editora PUC costuma fazer bons livros sobre Jornalismo. Para checar preços, clique AQUI.
sábado, 18 de maio de 2013
Hemingway em português nos e-books gera polêmica entre editoras
Deu hoje no caderno "Ilustrada" da Folha de S. Paulo.
Editora de Hemingway nos EUA vende e-books no Brasil, sob protestos de grupo nacional
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CASSIANO ELEK MACHADO
DE SÃO PAULO
"Dentro do território brasileiro, a Bertrand Brasil tem a exclusividade de publicar a obra. Eles não poderiam fazer isso", diz Sérgio França, responsável pela área digital do grupo Record (do qual faz parte a Bertrand).
Há duas semanas, a empresa notificou livrarias, como a Amazon brasileira, que chegou a suspender temporariamente a venda de e-books de clássicos como "O Velho e o Mar" com o selo da editora Scribner (parte do grupo Simon & Schuster).
Mas as vendas voltaram dias depois. O leitor nacional pode comprar atualmente, por exemplo, o romance "Por Quem os Sinos Dobram" na versão da Bertrand Brasil (tradução de Luiz Peazê) por R$ 41 e na do selo Scribner (com tradução de Monteiro Lobato) por R$ 20,39.
"Vamos voltar a notificar todos os que estão vendendo e tomar as devidas medidas", diz a diretora editorial da Bertrand Brasil, Rosemary Alves.
Procurado pela Folha sete vezes, desde o início de maio, por e-mail e por telefone, o diretor responsável pela área de direitos autorais da Scribner, Paul O'Halloran, não respondeu a nenhuma pergunta. Em sua única mensagem, questionou: "Posso saber por que você pergunta?".
HEMINGWAY BÚLGARO
Com as 12 obras de Hemingway à venda em português, é a primeira vez que o selo Scribner, fundado em 1846 e editora original de autores como Scott Fitzgerald, lança livros neste idioma.
Hemingway foi, nos Estados Unidos, o primeiro dos grandes escritores a ter livros digitais à venda, em 2002, pela mesma editora.
Além de vender as obras do autor em português, a mesma Scribner está comercializando pela internet os livros dele em búlgaro.
"Este episódio mostra que, com o digital, editoras de um país podem vender diretamente traduções de seus livros em outros países", diz Carlo Carrenho, consultor e diretor do site PublishNews.
"O maior problema para uma editora vender seus livros impressos em outro país sempre foi a distribuição física. No digital, isso cai e o grande custo é o da tradução", acrescenta ele.
No caso da Scribner, porém, ela vende traduções já existentes, como as feitas por Lobato e pelo também escritor Jorge de Sena, já publicadas em Portugal pela editora Livros do Brasil, que confirmou à Folha ter feito acordo com a editora americana.
Mas a venda da edição portuguesa, em versões impressas e digitais, seria ilegal, porque, segundo a Record, o contrato deles prevê exclusividade territorial.
"Não é comum que se convencione a possibilidade de venda do mesmo livro por mais de uma editora em um só território", diz o advogado especializado em direitos autorais Luiz Henrique Souza. "Pode estar ocorrendo edição fraudulenta."
"Esse é um tema fascinante, e que em direito é chamado de importação paralela", diz Ronaldo Lemos, fundador do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas, no Rio, e colunista da Folha. Para ele, "se a empresa brasileira decidir resolver a questão legalmente, terá de acionar a Justiça americana".
França, da editora Record, diz que não acredita que o episódio vá tomar este caminho. "Em geral, estes casos acabam sendo resolvidos de maneira cavalheiresca", diz ele, cujo departamento tem lançado 30 e-books por mês.
1. Uma obra literária pode ter simultaneamente mais de uma edição num país?
Pode, mas só se as obras do autor estiverem no chamado "domínio público" ou se os contratos não estabelecerem limites territoriais ou exclusividade - o que é muito raro no mercado editorial.
2. Que obras são consideradas de "domínio público"?
Para o direito brasileiro, podem ser publicadas por qualquer editora, em versão impressa ou digital, obras de autores mortos há mais de 70 anos. Hemingway, morto há 51 anos, não se enquadra na regra.
3. Existe alguma lei que impeça editoras estrangeiras de venderem e-books no Brasil em português?
Não existe nenhuma legislação específica que impeça que uma empresa estrangeira distribua e-books com alcance para o mercado brasileiro. Mas as editoras podem e costumam estabelecer limites territoriais quando compram os direitos da obra para um país.
4. A legislação é diferente para e-book ou impresso?
Não. A Lei 9610/98, que regulamenta os direitos autorais, aplica-se ao ambiente digital.
5. O que uma editora prejudicada pode fazer?
Pode procurar a editora original e pedir indenização ou procurar a distribuidora que invadiu o território da outra e solicitar a retirada da obra de circulação.
DE SÃO PAULO
Se Ernest Hemingway se notabilizou por frequentar os territórios mais inóspitos do mundo, sua obra agora enfrenta, com percalços, um terreno igualmente duro: a internet brasileira.
A edição de livros digitais do escritor norte-americano (1899-1961) em português está colocando em conflito um dos maiores grupos editoriais do país, a Record, e uma gigante dos Estados Unidos, a editora Simon & Schuster.
Os campos de batalha são variados: entre eles, as lojas brasileiras da Amazon e da Apple e o site da Livraria Cultura. Até o fechamento desta edição, as três vendiam para o território nacional mais de uma versão digital em português de obras de Hemingway, as da editora Bertrand Brasil e as da americana Scribner.
Há duas semanas, a empresa notificou livrarias, como a Amazon brasileira, que chegou a suspender temporariamente a venda de e-books de clássicos como "O Velho e o Mar" com o selo da editora Scribner (parte do grupo Simon & Schuster).
Mas as vendas voltaram dias depois. O leitor nacional pode comprar atualmente, por exemplo, o romance "Por Quem os Sinos Dobram" na versão da Bertrand Brasil (tradução de Luiz Peazê) por R$ 41 e na do selo Scribner (com tradução de Monteiro Lobato) por R$ 20,39.
"Vamos voltar a notificar todos os que estão vendendo e tomar as devidas medidas", diz a diretora editorial da Bertrand Brasil, Rosemary Alves.
Procurado pela Folha sete vezes, desde o início de maio, por e-mail e por telefone, o diretor responsável pela área de direitos autorais da Scribner, Paul O'Halloran, não respondeu a nenhuma pergunta. Em sua única mensagem, questionou: "Posso saber por que você pergunta?".
HEMINGWAY BÚLGARO
Com as 12 obras de Hemingway à venda em português, é a primeira vez que o selo Scribner, fundado em 1846 e editora original de autores como Scott Fitzgerald, lança livros neste idioma.
Hemingway foi, nos Estados Unidos, o primeiro dos grandes escritores a ter livros digitais à venda, em 2002, pela mesma editora.
Além de vender as obras do autor em português, a mesma Scribner está comercializando pela internet os livros dele em búlgaro.
"Este episódio mostra que, com o digital, editoras de um país podem vender diretamente traduções de seus livros em outros países", diz Carlo Carrenho, consultor e diretor do site PublishNews.
"O maior problema para uma editora vender seus livros impressos em outro país sempre foi a distribuição física. No digital, isso cai e o grande custo é o da tradução", acrescenta ele.
No caso da Scribner, porém, ela vende traduções já existentes, como as feitas por Lobato e pelo também escritor Jorge de Sena, já publicadas em Portugal pela editora Livros do Brasil, que confirmou à Folha ter feito acordo com a editora americana.
Mas a venda da edição portuguesa, em versões impressas e digitais, seria ilegal, porque, segundo a Record, o contrato deles prevê exclusividade territorial.
"Não é comum que se convencione a possibilidade de venda do mesmo livro por mais de uma editora em um só território", diz o advogado especializado em direitos autorais Luiz Henrique Souza. "Pode estar ocorrendo edição fraudulenta."
"Esse é um tema fascinante, e que em direito é chamado de importação paralela", diz Ronaldo Lemos, fundador do Centro de Tecnologia e Sociedade da Fundação Getúlio Vargas, no Rio, e colunista da Folha. Para ele, "se a empresa brasileira decidir resolver a questão legalmente, terá de acionar a Justiça americana".
França, da editora Record, diz que não acredita que o episódio vá tomar este caminho. "Em geral, estes casos acabam sendo resolvidos de maneira cavalheiresca", diz ele, cujo departamento tem lançado 30 e-books por mês.
*
TIRE SUAS DÚVIDAS SOBRE EDIÇÃO DIGITAL1. Uma obra literária pode ter simultaneamente mais de uma edição num país?
Pode, mas só se as obras do autor estiverem no chamado "domínio público" ou se os contratos não estabelecerem limites territoriais ou exclusividade - o que é muito raro no mercado editorial.
2. Que obras são consideradas de "domínio público"?
Para o direito brasileiro, podem ser publicadas por qualquer editora, em versão impressa ou digital, obras de autores mortos há mais de 70 anos. Hemingway, morto há 51 anos, não se enquadra na regra.
3. Existe alguma lei que impeça editoras estrangeiras de venderem e-books no Brasil em português?
Não existe nenhuma legislação específica que impeça que uma empresa estrangeira distribua e-books com alcance para o mercado brasileiro. Mas as editoras podem e costumam estabelecer limites territoriais quando compram os direitos da obra para um país.
4. A legislação é diferente para e-book ou impresso?
Não. A Lei 9610/98, que regulamenta os direitos autorais, aplica-se ao ambiente digital.
5. O que uma editora prejudicada pode fazer?
Pode procurar a editora original e pedir indenização ou procurar a distribuidora que invadiu o território da outra e solicitar a retirada da obra de circulação.
Fontes: advogados Liana Machado, Luiz Henrique Souza e Ronaldo Lemos
quarta-feira, 15 de maio de 2013
Livros sobre novas tecnologias em Jornalismo: "Webjornalismo", Magaly Prado
Já há algum tempo que estava para ler esse livro. Embora seja de 2011 ainda é atual e vale a pena ser lido especialmente por estudantes de Jornalismo, professores e jornalistas.
Para saber mais, clique aqui.
domingo, 12 de maio de 2013
"Folha explica Folha", Ana Estela de Souza Pinto
Gosto dessa coleção da Folha. Já li alguns. E recomendo esse sobre a própria Folha. Boa aula de Jornalismo. Não morro de amores pela empresa Folha e alguns de seus deslumbrados empregados, mas admiro algumas coisas que eles fazem. E essa Ana Estela de Souza Pinto, de quem já li outros dois interessantes livros (um deles muito bom para estudantes de Jornalismo) escreve muito bem.
No livro a autora comenta as acusações de que a Folha emprestou veículo durante a Ditadura aos órgão de repressão. Um trecho acima.
É livro pequeno e tem bom preço: em torno de R$ 15,90 no site da Publifolha.
Para saber mais, clique aqui.
Sete motivos para viver entre livros
Pesquei na Rede.
Poucas compulsões de consumo são tão bem vistas socialmente quanto o desejo de acumular livros. Ao contrário dos admiradores de sapatos, perucas, miniaturas ou outros bens de consumo supostamente fúteis, que são forçados a dedicar-se a suas paixões de forma quase clandestina para escapar do julgamento alheio, fãs de livros podem disfarçar seu descontrole consumista como uma implacável sede de conhecimento. O advento dos livros digitais tornou a vida do aspirante a bibliófilo ainda mais fácil. Se antes era necessário enfrentar as barreiras do espaço, hoje uma biblioteca de dezenas de milhares de exemplares cabe no bolso de qualquer paletó, ou mesmo num celular. Um cartão de memória do tamanho da unha de um dedão pode armazenar mais de trinta mil livros – um acervo equivalente feito de papel exigiria um apartamento inteiro para abrigá-lo. O custo também deixou de ser um empecilho. É possível encontrar uma infinidade de obras disponíveis gratuitamente na internet, em domínio público, e o preço dos exemplares novos, sobretudo os importados, é um convite à compra por impulso.
A escolha entre os livros físicos e os digitais é uma questão de gosto, e um detalhe irrelevante diante da meta de formar a biblioteca ideal. Na busca por esse objetivo, tanto os fanáticos por tecnologia quanto os fetichistas do papel têm de se render aos ensinamentos dos grandes colecionadores do passado. O tradutor e editor francês Jacques Bonnet, dono de um acervo de mais de quarenta mil volumes, é uma das maiores autoridades no assunto. Sua coletânea de ensaios Fantasmas na biblioteca, recém-lançada no Brasil, reúne nove textos sobre seu amor pelos livros. Qualquer comprador compulsivo de literatura deveria fazer o enorme sacrifício de acrescentá-la a sua coleção. Com base nos ensaios de Bonnet, elaborei uma lista com suas sete principais razões para viver entre livros. Elas valem tanto para quem já se dedica à formação da biblioteca perfeita quanto para quem apenas gosta de livros, e estava à procura de uma desculpa para transformar seu apreço em loucura.
1) O prazer da posse
Aprendemos a ler na infância e, se conseguirmos escapar das inúmeras outras tentações que roubam a atenção das crianças, é possível desenvolver desde cedo uma paixão pela literatura. A compulsão por livros, porém, só chega mais tarde. Nossa velocidade de leitura se mantém constante, o tempo dedicado a ela se torna escasso e passamos a comprar mais livros do que somos capazes de ler. É uma decisão questionável, ao menos do ponto de vista econômico. “Livros são caros na compra; não valem nada na revenda; são caríssimos quando queremos encontrá-los e estão esgotados, escreve Bonnet. O custo é compensado pelo prazer da sensação de posse. Mesmo o exemplar não lido, é, de certa forma, conquistado por seu dono. Ou, como diria Bonnet, “também foram ‘lidos’ de um certo modo, estão classificados em algum lugar do meu espírito como na minha biblioteca.” Apesar de prazeroso, o acúmulo de livros não lidos é uma atividade que requer cuidado. Fantasmas na biblioteca reproduz o aviso de Sêneca: “Que me importam esses inumeráveis livros e essas bibliotecas, cujos proprietários, durante toda a vida, mal leram as etiquetas?” Por mais que a compra compulsiva de livros seja bem-vista, a meta final deve ser sempre a leitura, ainda que num futuro distante.
2) O flerte e a culpa
A falta de espaço ou de dinheiro podem frear a expansão de uma biblioteca pessoal, mas o maior inimigo do acúmulo de livros é a culpa. Quando a pilha de exemplares comprados e não lidos cresce, até o bibliômano mais perdulário começa a se sentir culpado por seus flertes. Felizmente, os ímpetos de racionalidade não costumam resistir a uma visita à livraria, ou mesmo a alguns minutos diante do computador. Faço uma confissão, certo de que meu caso não é o único. Num dia 31 de dezembro, ao perceber que a quantidade de livros não lidos em meu leitor digital e em minha estante seria suficiente para algumas décadas de leitura, prometi não comprar livros durante o ano seguinte. A promessa foi quebrada antes do fim de janeiro, quando o site de uma livraria anunciou uma promoção imperdível – a primeira de muitas naquele ano. Descobri que a resistência a comprar novos livros só aumenta o prazer de ceder à tentação. Os motivos que fazem um leitor se deixar vencer pelo flerte são os mais variados. Bonnet revela que, em sua juventude, comprou um exemplar de Lolita, de Nabokov, só porque gostou da capa, e se rendeu a O lobo da estepe, de Herman Hesse, por causa do título misterioso, mesmo sem conhecer o autor. Embora alguns livros sejam comprados depois de longos namoros, a maioria chega às estantes graças a essas paixões à primeira vista que, após a compra, se transformam em relacionamentos duradouros.
3) O apego inexplicável
Se compramos livros seguindo critérios quase irracionais, cedo ou tarde nos tornamos vítimas de nossos instintos e maculamos nossas coleções, grandes ou pequenas, com obras de baixa qualidade. Isso nos força a escolher entre o prazer de possuir um livro, mesmo ruim, e a vontade racional de passá-lo adiante e abrir espaço para outro volume, mais adequado às nossas expectativas. Nessas batalhas contra a razão, o desejo de preservação do acervo raramente é derrotado. “A escolha do que se deve guardar ou rejeitar requer uma energia que eu sempre economizei”, diz Bonnet. “Quem sabe se, no futuro, não terei necessidade de uma obra que, na hora, achei medíocre?”
4) O bibliotecário em cada um de nós
Os entusiastas do livro digital têm, aqui, um trabalho (e um passatempo) a menos do que os admiradores dos livros de papel. Em leitores digitais como o Kindle ou o Kobo, bastam alguns cliques para organizar toda sua coleção por título, data de leitura ou nome do autor. Os átomos são muito mais indóceis que os bits. Domar uma estante de pequeno ou médio porte exige no mínimo uma tarde de trabalho. Organizar uma coleção de milhares de volumes é uma tarefa para a vida inteira. Além do esforço braçal necessário para remover os livros das prateleiras e reorganizá-los, há o esforço intelectual de escolher entre vários critérios de organização. Ao contrário dos arquivos digitais, os livros de papel aceitam uma infinidade de classificações. Bonnet reproduz uma lista elaborada pelo romancista francês Georges Perec. Segundo ele, é possível organizar os livros por ordem alfabética (de título ou nome do autor), por continentes ou países, por cores, por data de aquisição, por data de publicação, por formatos, por gêneros, por grandes períodos literários, por línguas, por prioridades de leitura, por encadernações e por séries. Em seguida, Bonnet expõe as falhas de cada um desses critérios e volta a citar Perec: “Nenhuma dessas classificações é satisfatória em si mesma. Toda biblioteca se ordena a partir de uma combinação dessas classificações.”
5) A força dos hábitos
Os acumuladores de livros podem ser divididos em dois grupos. Alguns tratam seus exemplares com reverência. Outros encaram os livros como meros objetos de estudo e trabalho. Os membros do primeiro grupo tentam manter ao máximo o estado de conservação das obras. Ao abrir um volume da coleção de um deles (com a devida autorização do dono, acompanhada de instruções de manuseio), é difícil notar traços de contato com mãos humanas. Os elementos do segundo grupo são facilmente reconhecidos por suas estantes cheias de exemplares castigados pelo uso e repletos de anotações. Bonnet se enquadra no segundo grupo. “Escrevo em meus livros, a lápis, com caneta hidrográfica ou esferográfica. Aliás, não consigo ler sem alguma coisa à mão.” Os conservacionistas podem se gabar do fato de que suas coleções sobreviverão por mais tempo. Os anotadores compulsivos têm o privilégio de reler suas anotações anos depois de feitas, como recados ao leitor futuro numa máquina do tempo.
6) Memórias e fantasias
Embora a presença opressora dos livros comprados e não lidos iniba esse comportamento, é inevitável reler alguns exemplares que insistem em sair da estante para a cabeceira. Ao abrir um livro já lido, revisitamos não apenas as palavras do autor, mas também nosso próprio passado. O estado de espírito que tínhamos na primeira leitura ressurge na leitura seguinte, mesmo depois de muitos anos. Reler é discutir consigo mesmo, e muitas vezes discordar de julgamentos do passado. Bonnet cita o exemplo do escritor modernista Paul Morand, cujo estilo o encantara aos 20 anos, mas tornou-se insuportável numa releitura depois dos 60. Quem acumula enormes pilhas de livros não lidos depara com outro prazer da memória, mais melancólico: o de se emocionar pela primeira vez com um exemplar comprado há muitos anos e imaginar o que teria sido diferente em sua vida se o tivesse lido na primeira oportunidade. Quanto maior a lista de obras a ler, mais numerosas são as vidas paralelas. Se suas leituras não têm qualquer influência sobre suas decisões e seu modo de viver, você está lendo os livros errados.
7) O dom de esquecer
Por maiores que sejam as estantes, ou o espaço nos discos rígidos, a tarefa de processar o conteúdo (ou ao menos as capas e títulos) de uma coleção de livros cabe, em última instância, à mente do leitor – um instrumento fascinante, mas pouquíssimo confiável. Com o passar dos anos e o acúmulo dos livros nas prateleiras e na memória, obras que lemos com atenção podem ser quase totalmente esquecidas. Bonnet cita Pierre Bayard, autor de Como falar dos livros que não lemos, para explicar essa fraqueza. “É, antes de tudo, difícil saber com precisão se lemos ou não um livro, pois a leitura é o lugar do evanescente”, diz Bayard. Ao conversar com outro leitor sobre um livro que já lemos, não é raro perceber que deixamos de notar aspectos cruciais da obra, ou que apagamos trechos inteiros da memória. Se escolhermos o texto certo e esperarmos tempo o bastante para que a memória comece a nos trair, cada releitura da mesma obra pode ser uma experiência totalmente nova. Mesmo quem vive entre quarenta mil livros é capaz de perder-se num só.
* Danilo Venticinque é editor de livros de ÉPOCA. Conta com a revolução dos e-books para economizar espaço na estante e colocar as leituras em dia. Escreve às terças-feiras sobre os poucos lançamentos que consegue ler, entre os muitos que compra por impulso.
*Esse texto foi tirado do blog do JJ (http://www.blogdojj.com.br/), autor do livro Publicitar: Uma Nova Visão da Publicidade, lançado pela Qualitymark Editora.
7 motivos para viver entre livros
Por: Danilo Venticinque*
Poucas compulsões de consumo são tão bem vistas socialmente quanto o desejo de acumular livros. Ao contrário dos admiradores de sapatos, perucas, miniaturas ou outros bens de consumo supostamente fúteis, que são forçados a dedicar-se a suas paixões de forma quase clandestina para escapar do julgamento alheio, fãs de livros podem disfarçar seu descontrole consumista como uma implacável sede de conhecimento. O advento dos livros digitais tornou a vida do aspirante a bibliófilo ainda mais fácil. Se antes era necessário enfrentar as barreiras do espaço, hoje uma biblioteca de dezenas de milhares de exemplares cabe no bolso de qualquer paletó, ou mesmo num celular. Um cartão de memória do tamanho da unha de um dedão pode armazenar mais de trinta mil livros – um acervo equivalente feito de papel exigiria um apartamento inteiro para abrigá-lo. O custo também deixou de ser um empecilho. É possível encontrar uma infinidade de obras disponíveis gratuitamente na internet, em domínio público, e o preço dos exemplares novos, sobretudo os importados, é um convite à compra por impulso.
A escolha entre os livros físicos e os digitais é uma questão de gosto, e um detalhe irrelevante diante da meta de formar a biblioteca ideal. Na busca por esse objetivo, tanto os fanáticos por tecnologia quanto os fetichistas do papel têm de se render aos ensinamentos dos grandes colecionadores do passado. O tradutor e editor francês Jacques Bonnet, dono de um acervo de mais de quarenta mil volumes, é uma das maiores autoridades no assunto. Sua coletânea de ensaios Fantasmas na biblioteca, recém-lançada no Brasil, reúne nove textos sobre seu amor pelos livros. Qualquer comprador compulsivo de literatura deveria fazer o enorme sacrifício de acrescentá-la a sua coleção. Com base nos ensaios de Bonnet, elaborei uma lista com suas sete principais razões para viver entre livros. Elas valem tanto para quem já se dedica à formação da biblioteca perfeita quanto para quem apenas gosta de livros, e estava à procura de uma desculpa para transformar seu apreço em loucura.
1) O prazer da posse
Aprendemos a ler na infância e, se conseguirmos escapar das inúmeras outras tentações que roubam a atenção das crianças, é possível desenvolver desde cedo uma paixão pela literatura. A compulsão por livros, porém, só chega mais tarde. Nossa velocidade de leitura se mantém constante, o tempo dedicado a ela se torna escasso e passamos a comprar mais livros do que somos capazes de ler. É uma decisão questionável, ao menos do ponto de vista econômico. “Livros são caros na compra; não valem nada na revenda; são caríssimos quando queremos encontrá-los e estão esgotados, escreve Bonnet. O custo é compensado pelo prazer da sensação de posse. Mesmo o exemplar não lido, é, de certa forma, conquistado por seu dono. Ou, como diria Bonnet, “também foram ‘lidos’ de um certo modo, estão classificados em algum lugar do meu espírito como na minha biblioteca.” Apesar de prazeroso, o acúmulo de livros não lidos é uma atividade que requer cuidado. Fantasmas na biblioteca reproduz o aviso de Sêneca: “Que me importam esses inumeráveis livros e essas bibliotecas, cujos proprietários, durante toda a vida, mal leram as etiquetas?” Por mais que a compra compulsiva de livros seja bem-vista, a meta final deve ser sempre a leitura, ainda que num futuro distante.
2) O flerte e a culpa
A falta de espaço ou de dinheiro podem frear a expansão de uma biblioteca pessoal, mas o maior inimigo do acúmulo de livros é a culpa. Quando a pilha de exemplares comprados e não lidos cresce, até o bibliômano mais perdulário começa a se sentir culpado por seus flertes. Felizmente, os ímpetos de racionalidade não costumam resistir a uma visita à livraria, ou mesmo a alguns minutos diante do computador. Faço uma confissão, certo de que meu caso não é o único. Num dia 31 de dezembro, ao perceber que a quantidade de livros não lidos em meu leitor digital e em minha estante seria suficiente para algumas décadas de leitura, prometi não comprar livros durante o ano seguinte. A promessa foi quebrada antes do fim de janeiro, quando o site de uma livraria anunciou uma promoção imperdível – a primeira de muitas naquele ano. Descobri que a resistência a comprar novos livros só aumenta o prazer de ceder à tentação. Os motivos que fazem um leitor se deixar vencer pelo flerte são os mais variados. Bonnet revela que, em sua juventude, comprou um exemplar de Lolita, de Nabokov, só porque gostou da capa, e se rendeu a O lobo da estepe, de Herman Hesse, por causa do título misterioso, mesmo sem conhecer o autor. Embora alguns livros sejam comprados depois de longos namoros, a maioria chega às estantes graças a essas paixões à primeira vista que, após a compra, se transformam em relacionamentos duradouros.
3) O apego inexplicável
Se compramos livros seguindo critérios quase irracionais, cedo ou tarde nos tornamos vítimas de nossos instintos e maculamos nossas coleções, grandes ou pequenas, com obras de baixa qualidade. Isso nos força a escolher entre o prazer de possuir um livro, mesmo ruim, e a vontade racional de passá-lo adiante e abrir espaço para outro volume, mais adequado às nossas expectativas. Nessas batalhas contra a razão, o desejo de preservação do acervo raramente é derrotado. “A escolha do que se deve guardar ou rejeitar requer uma energia que eu sempre economizei”, diz Bonnet. “Quem sabe se, no futuro, não terei necessidade de uma obra que, na hora, achei medíocre?”
4) O bibliotecário em cada um de nós
Os entusiastas do livro digital têm, aqui, um trabalho (e um passatempo) a menos do que os admiradores dos livros de papel. Em leitores digitais como o Kindle ou o Kobo, bastam alguns cliques para organizar toda sua coleção por título, data de leitura ou nome do autor. Os átomos são muito mais indóceis que os bits. Domar uma estante de pequeno ou médio porte exige no mínimo uma tarde de trabalho. Organizar uma coleção de milhares de volumes é uma tarefa para a vida inteira. Além do esforço braçal necessário para remover os livros das prateleiras e reorganizá-los, há o esforço intelectual de escolher entre vários critérios de organização. Ao contrário dos arquivos digitais, os livros de papel aceitam uma infinidade de classificações. Bonnet reproduz uma lista elaborada pelo romancista francês Georges Perec. Segundo ele, é possível organizar os livros por ordem alfabética (de título ou nome do autor), por continentes ou países, por cores, por data de aquisição, por data de publicação, por formatos, por gêneros, por grandes períodos literários, por línguas, por prioridades de leitura, por encadernações e por séries. Em seguida, Bonnet expõe as falhas de cada um desses critérios e volta a citar Perec: “Nenhuma dessas classificações é satisfatória em si mesma. Toda biblioteca se ordena a partir de uma combinação dessas classificações.”
5) A força dos hábitos
Os acumuladores de livros podem ser divididos em dois grupos. Alguns tratam seus exemplares com reverência. Outros encaram os livros como meros objetos de estudo e trabalho. Os membros do primeiro grupo tentam manter ao máximo o estado de conservação das obras. Ao abrir um volume da coleção de um deles (com a devida autorização do dono, acompanhada de instruções de manuseio), é difícil notar traços de contato com mãos humanas. Os elementos do segundo grupo são facilmente reconhecidos por suas estantes cheias de exemplares castigados pelo uso e repletos de anotações. Bonnet se enquadra no segundo grupo. “Escrevo em meus livros, a lápis, com caneta hidrográfica ou esferográfica. Aliás, não consigo ler sem alguma coisa à mão.” Os conservacionistas podem se gabar do fato de que suas coleções sobreviverão por mais tempo. Os anotadores compulsivos têm o privilégio de reler suas anotações anos depois de feitas, como recados ao leitor futuro numa máquina do tempo.
6) Memórias e fantasias
Embora a presença opressora dos livros comprados e não lidos iniba esse comportamento, é inevitável reler alguns exemplares que insistem em sair da estante para a cabeceira. Ao abrir um livro já lido, revisitamos não apenas as palavras do autor, mas também nosso próprio passado. O estado de espírito que tínhamos na primeira leitura ressurge na leitura seguinte, mesmo depois de muitos anos. Reler é discutir consigo mesmo, e muitas vezes discordar de julgamentos do passado. Bonnet cita o exemplo do escritor modernista Paul Morand, cujo estilo o encantara aos 20 anos, mas tornou-se insuportável numa releitura depois dos 60. Quem acumula enormes pilhas de livros não lidos depara com outro prazer da memória, mais melancólico: o de se emocionar pela primeira vez com um exemplar comprado há muitos anos e imaginar o que teria sido diferente em sua vida se o tivesse lido na primeira oportunidade. Quanto maior a lista de obras a ler, mais numerosas são as vidas paralelas. Se suas leituras não têm qualquer influência sobre suas decisões e seu modo de viver, você está lendo os livros errados.
7) O dom de esquecer
Por maiores que sejam as estantes, ou o espaço nos discos rígidos, a tarefa de processar o conteúdo (ou ao menos as capas e títulos) de uma coleção de livros cabe, em última instância, à mente do leitor – um instrumento fascinante, mas pouquíssimo confiável. Com o passar dos anos e o acúmulo dos livros nas prateleiras e na memória, obras que lemos com atenção podem ser quase totalmente esquecidas. Bonnet cita Pierre Bayard, autor de Como falar dos livros que não lemos, para explicar essa fraqueza. “É, antes de tudo, difícil saber com precisão se lemos ou não um livro, pois a leitura é o lugar do evanescente”, diz Bayard. Ao conversar com outro leitor sobre um livro que já lemos, não é raro perceber que deixamos de notar aspectos cruciais da obra, ou que apagamos trechos inteiros da memória. Se escolhermos o texto certo e esperarmos tempo o bastante para que a memória comece a nos trair, cada releitura da mesma obra pode ser uma experiência totalmente nova. Mesmo quem vive entre quarenta mil livros é capaz de perder-se num só.
* Danilo Venticinque é editor de livros de ÉPOCA. Conta com a revolução dos e-books para economizar espaço na estante e colocar as leituras em dia. Escreve às terças-feiras sobre os poucos lançamentos que consegue ler, entre os muitos que compra por impulso.
*Esse texto foi tirado do blog do JJ (http://www.blogdojj.com.br/), autor do livro Publicitar: Uma Nova Visão da Publicidade, lançado pela Qualitymark Editora.
sábado, 11 de maio de 2013
Resenhas em blogs atraem leitores e editoras
Deu hoje na Folha de S. Paulo. Especial para blogueiros de bom nível e ligados em livros.
A abertura da matéria.
A abertura da matéria.
Resenhas
literárias de amadores na internet atraem leitores e abrem filão para editoras
FERNANDA
EZABELLA
DE LOS
ANGELES
RAQUEL COZER
COLUNISTA DA
FOLHA
Todo mês, 75
mil pessoas acessam os vídeos em que o paulista Danilo Leonardi, 26, comenta
livros. A carioca Ana Grilo, 37, diz ler até 150 títulos por ano para seu blog
de resenhas, escrito em inglês. O americano Donald Mitchell, 66, já publicou
4.475 resenhas na Amazon -por parte delas, levantou R$ 70 mil, doados para uma
ONG beneficente.
Os três são
personagens de um movimento que, nos últimos anos, chamou a atenção de editoras
e virou negócio: o de críticas de livros feitas na internet por amadores, que,
com linguagem mais simples, atraem milhares de leitores.
Com o aumento
na venda de e-books, a expansão da autopublicação e a concorrência ferrenha
entre editoras, textos escritos por hobby ou por até R$ 1.000 tornaram-se uma
alternativa de divulgação capaz de atingir nichos e multiplicar vendas de
livros.
Nos EUA,
páginas como o Hollywood Book Reviews e o Pacific Book Review cobram de autores
e editoras de R$ 250 a R$ 800 por textos a serem publicados em até 26 sites,
incluindo seções de comentários de lojas virtuais.
Editoras
estrangeiras passaram, em meados da década passada, a enviar livros para
blogueiros resenharem, tal como já faziam com a imprensa. Em 2009, casas como
Record e Planeta importaram a ideia, que logo ganhou jeitinho brasileiro:
concursos tão disputados quanto vestibulares.
Nesse
formato, as editoras criam formulários de inscrições e selecionam blogs após
criteriosa avaliação da audiência e da qualidade dos texto. O
"pagamento", ressaltam editoras e blogueiros, são apenas os livros a
serem avaliados, nunca dinheiro.
No fim do ano
passado, 1.007 blogueiros concorreram a cem vagas de parceiros da LeYa. Na
Companhia das Letras, foram 779 candidatos para 50 vagas no semestre.
Aqui e no
exterior, editoras e autores investem em anúncios ou posts patrocinados em
blogs, que com isso chegam a faturar R$ 2.000 por mês.
Mas, no
geral, cobrar por resenhas pega mal, e a autorregulamentação dos blogueiros é
implacável. O blog americano ChickLitGirls cobrava R$ 200 por uma "boa
avaliação" até ser denunciado por uma escritora. O bate-boca subsequente
levou à extinção da página, em 2012.
Para se
manter com cobranças, só mesmo sendo rigoroso, como a Kirkus, tradicional
publicação de resenhas que, em 2004, passou a oferecer serviço de marketing
para autores autopublicados.
As críticas
no site podem custar mais de R$ 1.000 a autores e editoras interessados, e nem
sempre são positivas. Quem contratou o serviço pode ler antes e abortar a
missão caso a avaliação seja ruim. O dinheiro não é devolvido.
Abaixo a reprodução do impresso dos boxes.
Para ler é só passar a mãozinha.
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