domingo, 12 de maio de 2013

Sete motivos para viver entre livros

Pesquei na Rede.

7 motivos para viver entre livros
Por: Danilo Venticinque*

Poucas compulsões de consumo são tão bem vistas socialmente quanto o desejo de acumular livros. Ao contrário dos admiradores de sapatos, perucas, miniaturas ou outros bens de consumo supostamente fúteis, que são forçados a dedicar-se a suas paixões de forma quase clandestina para escapar do julgamento alheio, fãs de livros podem disfarçar seu descontrole consumista como uma implacável sede de conhecimento. O advento dos livros digitais tornou a vida do aspirante a bibliófilo ainda mais fácil. Se antes era necessário enfrentar as barreiras do espaço, hoje uma biblioteca de dezenas de milhares de exemplares cabe no bolso de qualquer paletó, ou mesmo num celular. Um cartão de memória do tamanho da unha de um dedão pode armazenar mais de trinta mil livros – um acervo equivalente feito de papel exigiria um apartamento inteiro para abrigá-lo. O custo também deixou de ser um empecilho. É possível encontrar uma infinidade de obras disponíveis gratuitamente na internet, em domínio público, e o preço dos exemplares novos, sobretudo os importados, é um convite à compra por impulso.

A escolha entre os livros físicos e os digitais é uma questão de gosto, e um detalhe irrelevante diante da meta de formar a biblioteca ideal. Na busca por esse objetivo, tanto os fanáticos por tecnologia quanto os fetichistas do papel têm de se render aos ensinamentos dos grandes colecionadores do passado. O tradutor e editor francês Jacques Bonnet, dono de um acervo de mais de quarenta mil volumes, é uma das maiores autoridades no assunto. Sua coletânea de ensaios Fantasmas na biblioteca, recém-lançada no Brasil, reúne nove textos sobre seu amor pelos livros. Qualquer comprador compulsivo de literatura deveria fazer o enorme sacrifício de acrescentá-la a sua coleção. Com base nos ensaios de Bonnet, elaborei uma lista com suas sete principais razões para viver entre livros. Elas valem tanto para quem já se dedica à formação da biblioteca perfeita quanto para quem apenas gosta de livros, e estava à procura de uma desculpa para transformar seu apreço em loucura.

1) O prazer da posse
Aprendemos a ler na infância e, se conseguirmos escapar das inúmeras outras tentações que roubam a atenção das crianças, é possível desenvolver desde cedo uma paixão pela literatura. A compulsão por livros, porém, só chega mais tarde. Nossa velocidade de leitura se mantém constante, o tempo dedicado a ela se torna escasso e passamos a comprar mais livros do que somos capazes de ler. É uma decisão questionável, ao menos do ponto de vista econômico. “Livros são caros na compra; não valem nada na revenda; são caríssimos quando queremos encontrá-los e estão esgotados, escreve Bonnet. O custo é compensado pelo prazer da sensação de posse. Mesmo o exemplar não lido, é, de certa forma, conquistado por seu dono. Ou, como diria Bonnet, “também foram ‘lidos’ de um certo modo, estão classificados em algum lugar do meu espírito como na minha biblioteca.” Apesar de prazeroso, o acúmulo de livros não lidos é uma atividade que requer cuidado. Fantasmas na biblioteca reproduz o aviso de Sêneca: “Que me importam esses inumeráveis livros e essas bibliotecas, cujos proprietários, durante toda a vida, mal leram as etiquetas?” Por mais que a compra compulsiva de livros seja bem-vista, a meta final deve ser sempre a leitura, ainda que num futuro distante.

2) O flerte e a culpa
A falta de espaço ou de dinheiro podem frear a expansão de uma biblioteca pessoal, mas o maior inimigo do acúmulo de livros é a culpa. Quando a pilha de exemplares comprados e não lidos cresce, até o bibliômano mais perdulário começa a se sentir culpado por seus flertes. Felizmente, os ímpetos de racionalidade não costumam resistir a uma visita à livraria, ou mesmo a alguns minutos diante do computador. Faço uma confissão, certo de que meu caso não é o único. Num dia 31 de dezembro, ao perceber que a quantidade de livros não lidos em meu leitor digital e em minha estante seria suficiente para algumas décadas de leitura, prometi não comprar livros durante o ano seguinte. A promessa foi quebrada antes do fim de janeiro, quando o site de uma livraria anunciou uma promoção imperdível – a primeira de muitas naquele ano. Descobri que a resistência a comprar novos livros só aumenta o prazer de ceder à tentação. Os motivos que fazem um leitor se deixar vencer pelo flerte são os mais variados. Bonnet revela que, em sua juventude, comprou um exemplar de Lolita, de Nabokov, só porque gostou da capa, e se rendeu a O lobo da estepe, de Herman Hesse, por causa do título misterioso, mesmo sem conhecer o autor. Embora alguns livros sejam comprados depois de longos namoros, a maioria chega às estantes graças a essas paixões à primeira vista que, após a compra, se transformam em relacionamentos duradouros.

3) O apego inexplicável
Se compramos livros seguindo critérios quase irracionais, cedo ou tarde nos tornamos vítimas de nossos instintos e maculamos nossas coleções, grandes ou pequenas, com obras de baixa qualidade. Isso nos força a escolher entre o prazer de possuir um livro, mesmo ruim, e a vontade racional de passá-lo adiante e abrir espaço para outro volume, mais adequado às nossas expectativas. Nessas batalhas contra a razão, o desejo de preservação do acervo raramente é derrotado. “A escolha do que se deve guardar ou rejeitar requer uma energia que eu sempre economizei”, diz Bonnet. “Quem sabe se, no futuro, não terei necessidade de uma obra que, na hora, achei medíocre?”

4) O bibliotecário em cada um de nós
Os entusiastas do livro digital têm, aqui, um trabalho (e um passatempo) a menos do que os admiradores dos livros de papel. Em leitores digitais como o Kindle ou o Kobo, bastam alguns cliques para organizar toda sua coleção por título, data de leitura ou nome do autor. Os átomos são muito mais indóceis que os bits. Domar uma estante de pequeno ou médio porte exige no mínimo uma tarde de trabalho. Organizar uma coleção de milhares de volumes é uma tarefa para a vida inteira. Além do esforço braçal necessário para remover os livros das prateleiras e reorganizá-los, há o esforço intelectual de escolher entre vários critérios de organização. Ao contrário dos arquivos digitais, os livros de papel aceitam uma infinidade de classificações. Bonnet reproduz uma lista elaborada pelo romancista francês Georges Perec. Segundo ele, é possível organizar os livros por ordem alfabética (de título ou nome do autor), por continentes ou países, por cores, por data de aquisição, por data de publicação, por formatos, por gêneros, por grandes períodos literários, por línguas, por prioridades de leitura, por encadernações e por séries. Em seguida, Bonnet expõe as falhas de cada um desses critérios e volta a citar Perec: “Nenhuma dessas classificações é satisfatória em si mesma. Toda biblioteca se ordena a partir de uma combinação dessas classificações.”

5) A força dos hábitos
Os acumuladores de livros podem ser divididos em dois grupos. Alguns tratam seus exemplares com reverência. Outros encaram os livros como meros objetos de estudo e trabalho. Os membros do primeiro grupo tentam manter ao máximo o estado de conservação das obras. Ao abrir um volume da coleção de um deles (com a devida autorização do dono, acompanhada de instruções de manuseio), é difícil notar traços de contato com mãos humanas. Os elementos do segundo grupo são facilmente reconhecidos por suas estantes cheias de exemplares castigados pelo uso e repletos de anotações. Bonnet se enquadra no segundo grupo. “Escrevo em meus livros, a lápis, com caneta hidrográfica ou esferográfica. Aliás, não consigo ler sem alguma coisa à mão.” Os conservacionistas podem se gabar do fato de que suas coleções sobreviverão por mais tempo. Os anotadores compulsivos têm o privilégio de reler suas anotações anos depois de feitas, como recados ao leitor futuro numa máquina do tempo.

6) Memórias e fantasias
Embora a presença opressora dos livros comprados e não lidos iniba esse comportamento, é inevitável reler alguns exemplares que insistem em sair da estante para a cabeceira. Ao abrir um livro já lido, revisitamos não apenas as palavras do autor, mas também nosso próprio passado. O estado de espírito que tínhamos na primeira leitura ressurge na leitura seguinte, mesmo depois de muitos anos. Reler é discutir consigo mesmo, e muitas vezes discordar de julgamentos do passado. Bonnet cita o exemplo do escritor modernista Paul Morand, cujo estilo o encantara aos 20 anos, mas tornou-se insuportável numa releitura depois dos 60. Quem acumula enormes pilhas de livros não lidos depara com outro prazer da memória, mais melancólico: o de se emocionar pela primeira vez com um exemplar comprado há muitos anos e imaginar o que teria sido diferente em sua vida se o tivesse lido na primeira oportunidade. Quanto maior a lista de obras a ler, mais numerosas são as vidas paralelas. Se suas leituras não têm qualquer influência sobre suas decisões e seu modo de viver, você está lendo os livros errados.

7) O dom de esquecer
Por maiores que sejam as estantes, ou o espaço nos discos rígidos, a tarefa de processar o conteúdo (ou ao menos as capas e títulos) de uma coleção de livros cabe, em última instância, à mente do leitor – um instrumento fascinante, mas pouquíssimo confiável. Com o passar dos anos e o acúmulo dos livros nas prateleiras e na memória, obras que lemos com atenção podem ser quase totalmente esquecidas. Bonnet cita Pierre Bayard, autor de Como falar dos livros que não lemos, para explicar essa fraqueza. “É, antes de tudo, difícil saber com precisão se lemos ou não um livro, pois a leitura é o lugar do evanescente”, diz Bayard. Ao conversar com outro leitor sobre um livro que já lemos, não é raro perceber que deixamos de notar aspectos cruciais da obra, ou que apagamos trechos inteiros da memória. Se escolhermos o texto certo e esperarmos tempo o bastante para que a memória comece a nos trair, cada releitura da mesma obra pode ser uma experiência totalmente nova. Mesmo quem vive entre quarenta mil livros é capaz de perder-se num só.

* Danilo Venticinque é editor de livros de ÉPOCA. Conta com a revolução dos e-books para economizar espaço na estante e colocar as leituras em dia. Escreve às terças-feiras sobre os poucos lançamentos que consegue ler, entre os muitos que compra por impulso.

*Esse texto foi tirado do blog do JJ (http://www.blogdojj.com.br/), autor do livro Publicitar: Uma Nova Visão da Publicidade, lançado pela Qualitymark Editora.

sábado, 11 de maio de 2013

Resenhas em blogs atraem leitores e editoras

Deu hoje na Folha de S. Paulo. Especial para blogueiros de bom nível e ligados em livros.



A abertura da matéria.


Resenhas literárias de amadores na internet atraem leitores e abrem filão para editoras

FERNANDA EZABELLA
DE LOS ANGELES
RAQUEL COZER
COLUNISTA DA FOLHA

Todo mês, 75 mil pessoas acessam os vídeos em que o paulista Danilo Leonardi, 26, comenta livros. A carioca Ana Grilo, 37, diz ler até 150 títulos por ano para seu blog de resenhas, escrito em inglês. O americano Donald Mitchell, 66, já publicou 4.475 resenhas na Amazon -por parte delas, levantou R$ 70 mil, doados para uma ONG beneficente.

Os três são personagens de um movimento que, nos últimos anos, chamou a atenção de editoras e virou negócio: o de críticas de livros feitas na internet por amadores, que, com linguagem mais simples, atraem milhares de leitores.

Com o aumento na venda de e-books, a expansão da autopublicação e a concorrência ferrenha entre editoras, textos escritos por hobby ou por até R$ 1.000 tornaram-se uma alternativa de divulgação capaz de atingir nichos e multiplicar vendas de livros.

Nos EUA, páginas como o Hollywood Book Reviews e o Pacific Book Review cobram de autores e editoras de R$ 250 a R$ 800 por textos a serem publicados em até 26 sites, incluindo seções de comentários de lojas virtuais.

Editoras estrangeiras passaram, em meados da década passada, a enviar livros para blogueiros resenharem, tal como já faziam com a imprensa. Em 2009, casas como Record e Planeta importaram a ideia, que logo ganhou jeitinho brasileiro: concursos tão disputados quanto vestibulares.

Nesse formato, as editoras criam formulários de inscrições e selecionam blogs após criteriosa avaliação da audiência e da qualidade dos texto. O "pagamento", ressaltam editoras e blogueiros, são apenas os livros a serem avaliados, nunca dinheiro.

No fim do ano passado, 1.007 blogueiros concorreram a cem vagas de parceiros da LeYa. Na Companhia das Letras, foram 779 candidatos para 50 vagas no semestre.

Aqui e no exterior, editoras e autores investem em anúncios ou posts patrocinados em blogs, que com isso chegam a faturar R$ 2.000 por mês.

Mas, no geral, cobrar por resenhas pega mal, e a autorregulamentação dos blogueiros é implacável. O blog americano ChickLitGirls cobrava R$ 200 por uma "boa avaliação" até ser denunciado por uma escritora. O bate-boca subsequente levou à extinção da página, em 2012.

Para se manter com cobranças, só mesmo sendo rigoroso, como a Kirkus, tradicional publicação de resenhas que, em 2004, passou a oferecer serviço de marketing para autores autopublicados.

As críticas no site podem custar mais de R$ 1.000 a autores e editoras interessados, e nem sempre são positivas. Quem contratou o serviço pode ler antes e abortar a missão caso a avaliação seja ruim. O dinheiro não é devolvido.

Abaixo a reprodução do impresso dos boxes.


Para ler é só passar a mãozinha.



Por que os títulos de livros atualmente são tão longos?, pergunta Ruy Castro


Mais uma sacada genial de mestre Ruy Castro. Deu hoje na Folha.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

"Como lidar com crises, jornalistas e outros predadores", Ricardo Feltrin


Vi na Folha de S. Paulo. Parece interessante. Vou encomendar. Em breve comento aqui no blog. Leiam a sinopse publicada no site da Folha:

"Se a sociedade é uma selva, o jornalista está no topo da cadeia alimentar. Predador seletivo, ele costuma escolher suas vítimas em um seleto grupo de pessoas para, em vez de devorá-las, expô-las à apreciação pública. É com essa visão bem-humorada que o jornalista Ricardo Feltrin analisa os problemas que empresas, empresários e celebridades possam enfrentar com a mídia no livro "Como Lidar com Crises, Jornalistas e outros Predadores".
A obra disseca as delicadas relações desse público com os jornalistas e aponta, com base em situações reais, vários erros cometidos pelas "vítimas" do noticiário. Também indica soluções e ensina como uma vítima "inocente" pode se defender de erros jornalísticos ou de notícias adversas.
Com 25 anos de experiência, Feltrin oferece um bê-á-bá de como lidar com situações de crise, mas não se furta a comentar os pecados dos próprios jornalistas. O livro examina casos reais de empresas que cometeram erros de comunicação ou deixaram que problemas ficassem ainda maiores ao repercutirem nas redes sociais, e mostra que jornalistas também erram - e muito -, como na atabalhoada cobertura do Caso Escola Base. Por fim, o autor ainda oferece um guia de como assessores de imprensa podem se relacionar com as redações sem serem devorados."

Para saber mais, clique aqui.

A biblioteca de Paulo Francis

Deu domingo no caderno "Ilustríssima" da Folha.


JORNALISMO
Na cova da fera
A biblioteca de Francis repousa intacta em NY
LUCAS FERRAZ
RESUMO
A partir de seu escritório em Nova York, Paulo Francis agitava a cultura brasileira com opiniões controversas, novidades intelectuais e diatribes disparadas para todos os lados. Preservada por sua viúva, a biblioteca nova-iorquina do jornalista aguarda destino no Brasil e oferece uma visão de sua irrequieta cabeça.

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No 21º andar de um prédio na esquina da rua 47 com a segunda avenida, em Manhattan, há uma biblioteca formada sobretudo por títulos de política e história americanas que, há 16 anos, repousa à espera de um destino no Brasil. Desde a morte do jornalista e escritor Paulo Francis, em 4 de fevereiro de 1997, quase 5.000 livros seguem praticamente intocados em seu escritório. A viúva, a jornalista Sonia Nolasco ainda mora no apartamento, mas se limitou a guardar alguns de seus próprios livros nas estantes e retirou outros, que distribuiu entre amigos dele.
Após uma tentativa fracassada, Sonia agora quer selar o envio do material para o país. Seu desejo, disse à Folha, é que o destinatário seja o Instituto Moreira Salles (IMS), instituição privada que se especializou na compra e na conservação de acervos literários e é o destino dos sonhos de nove entre dez famílias de escritores brasileiros. Embora se fale em "doações", as negociações para cuidar de tais papeladas quase sempre envolvem somas consideráveis.
Francis viveu mais da metade de seus 66 anos em Nova York --sua segunda cidade, depois do Rio, onde nasceu em 1930. Na primeira vez, nos anos 1950, ainda era o adolescente Franz Paulo Trannin da Matta Heilborn, que acompanhava o pai, funcionário da Esso em Nova York. Na segunda, em 1971, já era Paulo Francis, o editor da "Senhor", do "Pasquim" e da área cultural do "Correio da Manhã", entre outros feitos. É a essa época que remonta a formação da biblioteca da rua 47.

DOAÇÃO
Houve uma tentativa de levar os livros para o Brasil logo após a sua morte, por infarto fulminante. O acervo seria doado ao empresário Ronald Levinsohn, amigo de Francis e então dono da UniverCidade (Centro Universitário da Cidade), no Rio. Sonia e o próprio Francis prometeram a Levinsohn a doação da biblioteca, sobretudo dos livros políticos.
Algo como uma antiga dívida de gratidão unia o jornalista ao empresário. Em 1983, Levinsohn esteve envolvido num escândalo financeiro conhecido como Delfin, no qual a então maior caderneta de poupança do país sofreu intervenção do Banco Central. À época, Francis o defendeu publicamente --somente 23 anos depois a Justiça inocentaria o empresário.
Com a morte de Francis, porém, a relação entre Sonia e Levinsohn desandou. A doação melou.
"Imagino que deve ter muita coisa legal na biblioteca", comentou o empresário, em dezembro passado. Ele estava em sua casa carioca, no Cosme Velho, recém-chegado de Nova York, onde tem um suntuoso apartamento em Park Avenue. "Nova York nunca mais foi a mesma sem o Francis", disse, ao ser informado pelo repórter sobre o teor da conversa. Levinsohn lamentou não ter conseguido levar a biblioteca para o Brasil. Diz, contudo, que "tem amigos que podem alocar os livros em algum lugar, talvez a PUC-Rio".
Por enquanto, a cidade de Francis só recebeu, na década de 1990, sua coleção de 379 laser discs, espécie de antecessor do DVD que não vingou. O acervo está disponível para consultas na sede carioca do IMS e inclui filmes, concertos, óperas, balés e musicais. Quanto à biblioteca, o instituto informou à Folha que a viúva do jornalista ainda não os procurou oficialmente. E que, antes de tomar qualquer decisão, será necessário avaliar o acervo.
A biblioteca de Francis revela a peculiar educação sentimental de um comentarista de TV que nasceu e se criou sob a lógica da Guerra Fria. Expõe também laços afetivos e certas engrenagens da mente de um dos mais polêmicos jornalistas brasileiros do século 20.
O escritório permanece tal e qual estava quando ele morreu: ainda estão lá os quadros e desenhos de amigos da turma do "Pasquim", como Millôr Fernandes. Ainda está lá, na parede em frente à escrivaninha, a foto de um ídolo de juventude, o revolucionário russo Leon Trotsky. Da janela à sua direita, Francis via a fileira de arranha-céus ao longo da segunda avenida, em direção ao sul.
As estantes são uma amostra da pauta de seu "Diário da Corte", a influente coluna que ele publicava na Folha entre 1975 e 1990: teatro e ópera, romances, poesia, policiais e, sobretudo, ensaios, jornalismo e livros de história e política do século 20. São inúmeras as obras de autores que transitavam entre o ensaísmo e a grande reportagem, e que praticavam uma crítica de cultura tão erudita quanto ferina. Sem Francis, provavelmente seriam menos conhecidos no Brasil nomes como Gore Vidal, Joseph Mitchell e Tom Wolfe. As estantes ainda abrigam os clássicos que ele adorava citar, como Bernard Shaw, Edmund Wilson, Thomas Mann, Aldous Huxley e James Joyce.
Vai se decepcionar quem esperar encontrar ali um manancial para pesquisar a cultura brasileira dos anos 1950 e 60, quando Francis fazia e acontecia no Rio. As poucas obras em português são de amigos (Millôr, sempre ele, Ivan Lessa, Roberto Campos), um ou outro clássico da literatura brasileira e alguma coisa sobre os tempos de militante político, perseguido pela ditadura militar (1964-85).
Nenhum volume ali vem de sua fase carioca. "Suspeito que ele deixou no Rio uma grande coleção de literatura e teatro, porque a mudança para Nova York foi muito repentina", especula Ruy Castro, amigo de Francis e pertencente à primeira nova geração de jornalistas formada sob influência direta de Francis. Sonia Nolasco, que foi casada com Francis por mais de duas décadas, diz que nunca teve notícias dos livros daquela época.
A grande quantidade de volumes denuncia o fraco que Francis tinha por obras sobre a Segunda Guerra Mundial (1939-45) e sobre todos os presidentes americanos entre os anos 30 e 90, em especial Roosevelt, Kennedy, Lyndon Johnson, Nixon, Carter e Reagan.
Em 1986, ele afirmou, em sua coluna na Folha, que lia no mínimo três livros por semana. "Leio muito rápido. Mas por prazer, serei franco, leio exclusivamente thrillers." O jornalista Lucas Mendes, seu amigo em Nova York e companheiro de bancada no "Manhattan Connection", hoje da GloboNews, lembra que Francis tinha cada vez menos interesse por autores novos. "Ele relia os favoritos e poucas publicações, a maioria inglesas e conservadoras", conta.
Em "O Afeto que se Encerra" (Civilização Brasileira, 1980), de memórias, um de seus livros mais bem-sucedidos, Francis conta: "Toda minha formação é europeia, de Dostoiévski a Stendhal, a Sartre (romancista). Ivan [Lessa] me levou aos americanos, me esculachando o conservadorismo, de Hemingway a Fitzgerald, a Norman Mailer, a Capote, a Faulkner etc.".
Além da infância, suas memórias narram sua carreira jornalística, sua tentativa de viver de literatura e a convivência com os amigos. Ivan Lessa é apresentado como "irmão mais novo", "como Jorge Zahar, Ênio Silveira, Millôr Fernandes e Cláudio Abramo são os mais velhos".
Assim como Ruy Castro, o jornalista e escritor carioca Sérgio Augusto conheceu Francis nos anos 1960: foi seu colega na redação do "Pasquim". Na biblioteca do amigo em Nova York, conta ele, "encontrei quase os mesmos autores que tinha e guardo na minha. Apesar da diferença de idade [12 anos], pertencíamos praticamente à mesma geração".
Em 1998, estimulado por Sonia Nolasco, Sérgio Augusto levou, como recorda, "uma meia dúzia de livros" da biblioteca da rua 47. "Descobri um bocado de ensaístas e historiadores por intermédio do Francis", completa. Entre eles estão Gabriel Kolko, Eric Bentley e Geoffrey Barraclough, este último, segundo Sérgio Augusto, publicado no Brasil por Jorge Zahar por indicação de Paulo Francis.
Francis não era um deles, mas sua biblioteca faria a festa de ratos de sebo com suas coleções de revistas dos anos 70, como os exemplares da "Partisan Review", mitológica publicação de esquerda sobre política e literatura que circulou entre 1934 e 2003.
"Ele não era um Mindlin", define Ruy Castro, citando o maior bibliófilo brasileiro, cuja biblioteca, doada à USP, acaba de ser aberta à pesquisa. "Francis não tinha um comportamento reverente ao livro. A relação dele com o livro era muito pragmática. Ele pegava, lia, marcava o que queria, podia pular páginas e capítulos. Ele deixava o livro para trás sem problema."
Ruy conta que, quando o visitava em Nova York, o programa de sempre era flanar pelas livrarias, principalmente a tradicional Brentano's, fundada em 1853 e que fechou as portas em 2011.

ROMANCE
Em "Radical Chique e o Novo Jornalismo", Tom Wolfe narra a obsessão de sua geração de jornalistas com "o Romance", que ele escreve assim, com ironia maiúscula: "O Romance parecia um dos últimos desses grandes golpes de sorte, como encontrar ouro ou achar petróleo, com que um americano podia, do dia para a noite, sum relance, transformar inteiramente seu destino."
"Não havia lugar para jornalistas", recorda Wolfe mais adiante, ao descrever um ponto de encontro de escritores em Nova York. "A menos que ali estivesse no papel de futuro romancista ou simples cortesão dos grandes".
De certa forma, à sua maneira, a geração de Francis também viveu essa fantasia com "o Romance". Tendo se notabilizado pela opinião desabrida e idiossincrática, ele morreu sem se consagrar na ficção, como almejava. Seus romances --a trilogia formada por "Cabeça de Papel" (1977), "Cabeça de Negro" (1979) e o póstumo "Carne Viva" (2008)-- nunca receberam a mesma atenção de sua produção jornalística.
Os dois primeiros têm como pano de fundo a ditadura brasileira, a revolução e a oligarquia carioca. Os dois protagonistas, que dialogam freneticamente sobre esses temas, são seus alter egos. Em "O Afeto que se Encerra", Francis diz que "Cabeça de Papel" foi a melhor coisa que já escreveu e relembra o conselho de amigos que leram o livro antes da publicação, como Ênio Silveira e Ivan Lessa, e previram o fracasso.
Ainda assim, ele se abalou com a má repercussão. Teve depressão e, como contou em suas memórias, chegou a pensar em suicídio. A frustração ainda reverbera em Sonia Nolasco, que rechaça a ideia de publicar mais inéditos: "Só tive aborrecimento com o que saiu depois que ele morreu. Gente dizendo que ele tinha virado de direita ou que ele não sabia escrever ficção. Porque não diziam isso na frente dele, quando estava vivo?"
O tempo, porém, tem mostrado que o juízo negativo não se deve a questões pessoais ou à costumeira ira de seus contemporâneos com suas controvertidas opiniões.
"Como jornalista ele é muito mais brilhante do que como romancista, e ele mesmo reconhecia isso", diz Cristiane Costa, que no livro "Pena de Aluguel" (Companhia das Letras) destrinchou a vida anfíbia de escritores-jornalistas no Brasil entre 1904 e 2004. Entre eles, é claro, está Paulo Francis.
"A literatura do Francis tinha problemas estruturais graves, qualquer leitor, mesmo os mais apaixonados, percebe", diz Cristiane. "As tramas são confusas, a arquitetura narrativa é desleixada. Talvez Francis não tivesse paciência para a carpintaria literária."
Ruy Castro conta que ele realmente ficava chateado quando alguém falava mal de sua obra ficcional. "Eu e ele, assim como o nosso mestre maior, Bernard Shaw, não somos para a ficção", diz Ruy, que já se aventurou em dois romances. "A literatura dele era de ideias, não de ação, o que é sempre mais difícil." Já Sérgio Augusto o compara a Gore Vidal e Susan Sontag, estrelas da crítica cultural americana: "Bem melhores no ensaio do que na ficção".
O acervo da rua 47 inclui, além da biblioteca, os manuscritos inéditos de dois projetos: um livro inacabado, "O Homem que Inventou o Brasil", ficção em inglês sobre Getúlio Vargas e o Brasil dos anos 1950, e uma peça de teatro, uma das paixões do jornalista que, jovem, chegou a atuar. Pelo desejo da viúva, o destino desse material também deverá ser o Rio de Janeiro: a Biblioteca Nacional.
A ideia do livro sobre Getúlio, que seria destinado ao mercado americano, lhe foi sugerida pelo amigo Paulo Bertazzi. Muitos amigos dele não conheciam o projeto. Na década de 1990, um esperançoso Francis enviou trechos a editores americanos. Não houve resposta. E o livro ficou sem ponto final.
Certa vez, numa coluna, ele comentou sua produção literária: "Dei meu recado. Talvez, com o tempo, receba a resposta. É a consolação do escritor que se sente rejeitado".

segunda-feira, 22 de abril de 2013

"Rádio Fluminense FM, a porta de entrada do rock brasileiro nos anos 80", Maria Estrella (disponível no kindle)


Acompanhei bem a Fluminense FM, a Maldita. Dois de meus grandes amigos de infância, Sergio Vasconcellos e Amaury Santos, estavam entre os principais criadores. Algumas vezes fui a Niteroi para ouvir ao vivo e emprestar discos. Inovando como fez a rádio, o livro também está disponível no kindle. Clique aqui.

Aliás, a Folha de S. Paulo de ontem fez uma interessante reportagem sobre os ebooks. Leia.

Livro virtual fortalece pequenas editoras
Custo zero com impressão e transporte é vantagem; no exterior, minieditora publicou "Cinquenta Tons de Cinza"
Pequenas se concentram em distribuir e-books a lojas como a Amazon; no Brasil, são alternativa às editoras tradicionais
RICARDO MIOTODE SÃO PAULO
Com o crescimento do mercado de e-books, os custos reduzidos de operação de uma editora virtual, que não tem gastos com impressão e logística, devem fortalecer as pequenas empresas do setor.
O assunto chama a atenção da Câmara Brasileira do Livro, tradicional entidade do setor. O livro digital será protagonista do seu próximo congresso, em junho.
O debate surge porque o e-book está, talvez tardiamente, despertando no Brasil. O país tem, hoje, 11 mil títulos digitais. Reino Unido e EUA já passaram de 1 milhão. No mercado norte-americano, os digitais já representam 22% dos gastos com livros.
No exterior, pequenas empresas se especializaram em oferecer a autores em busca de fama a distribuição dos seus livros para aparelhos como o Kindle e o iPad.
Elas viraram sensação depois que uma delas, a obscura Writer's Coffee Shop, distribuiu às lojas virtuais dos e-books "Cinquenta Tons de Cinza", romance erótico sobre sadomasoquismo escrito pela produtora inglesa de TV Erika Leonard James.
O boca a boca -ou, no caso, o "teclado a teclado"- fez o serviço -e o livro, que saiu diretamente em formato virtual- virar uma sensação.
Só quando o barulho já era grande uma editora tradicional entrou no jogo.
No Vale do Silício, outras pequenas empresas já conseguiram dinheiro de investidores para se especializar em oferecer o serviço de distribuição virtual a autores que não conseguem -ou não querem- publicar por uma editora tradicional.
Essas empresas também ajudam o autor a conseguir um número ISBN, que é o cadastro no sistema de registro internacional de livros. O autor, que negocia com a editora virtual qual fatia das vendas ficará para ela, pode até escolher o preço do seu livro.
Desnecessário dizer que a grande maioria dos livros fica muito longe de virar um "Cinquenta Tons de Cinza". Mas os dados da Amazon, maior vendedora de livros virtuais nos EUA e no Reino Unido, mostram que o título não é o único caso de livro autopublicado -ou seja, sem uma editora tradicional, mas utilizando os serviços de uma distribuidora virtual- que faz sucesso.
Em 2012, 15 dos 100 livros mais vendidos pelo site foram publicados assim. A Amazon e a Apple têm se esforçado para fazer os autores irem diretamente a eles, cortando os intermediários e, assim, os preços. Jornais como "New York Times", que tradicionalmente não resenhavam livros "independentes", mudaram a sua política.
BRASIL
No Brasil, já há pequenas editoras oferecendo o serviço de edição digital. Duas delas são a Digital Books Editora (digitalbookseditora.com.br) e a KBR Editora (kbrdigital.com.br).
Elas cobram para dar ao livro um ISBN, uma capa e uma comercialização na Amazon, na Livraria Cultura virtual e na Saraiva.com.br, entre outras lojas -no caso da Digital Books, R$ 245; na KBR, o preço varia conforme o título.
Entre os livros já publicados, Noga Sklar, editora da KBR, cita, por exemplo, "O Rabino e o Psicanalista", coletânea de contos de temática judaica de Rosane Chonchol, que já vendeu cerca de 2.000 cópias na Amazon. "Para o mercado brasileiro, é muito expressivo", diz Sklar.
Para quem quiser vender o livro apenas na Amazon, é possível ainda utilizar o serviço de edição próprio dela, o Kindle Direct Publishing. Não há revisão nem nenhum tipo de apoio técnico, e o livro também não recebe ISBN.
Não é possível saber se surgirá em algum momento um e-book best-seller brasileiro como "Cinquenta Tons de Cinza" longe das grandes editoras. Mas vale lembrar que, no mercado de entretenimento nacional, músicos e comediantes descobriram que não é impossível fazer sucesso sem grandes gravadoras ou produtoras.
No Brasil, um exemplo recente é o canal independente de humor "Porta dos Fundos", cujos vídeos costumam ter mais de 2 milhões de espectadores da internet.

Críticos apontam falta de qualidade editorial
DE SÃO PAULOEmbora as pequenas editoras estejam fazendo sucesso no exterior, os críticos de livros americanos têm apontado falta de critério na publicação de livros por essas novas empresas virtuais.
Em artigo em abril do ano passado, por exemplo, a crítica Sarah Fay, da revista "The Atlantic", causou polêmica ao dizer que essas editoras têm sido "aglutinadoras de mediocridade".
Para ela, "esses e-books com frequência sofrem com escrita ruim e muitos erros de inglês. As editoras tradicionais têm as suas limitações, mas a boa literatura ainda precisa de editores, agentes, revisores e designers".
Javier Celaya, especialista espanhol em publicações digitais que virá ao Brasil para o congresso da Câmara Brasileira do Livro, concorda que "uma editora que não cuida das suas versões digitais está colocando o seu futuro em perigo", mas acha que o mercado tende a se ajustar.
"Em design, por exemplo, diria até que, nos últimos meses, tenho visto mais inovações na tela do que no papel."
Essa discussão deve chegar rapidamente ao Brasil. Em dezembro, estrearam no país a Amazon, a Kobo (parceira da Livraria Cultura no mundo digital) e a venda de e-books nacionais pelo Google Play.
A Apple já estava no mercado desde outubro e é líder -há 3 milhões de iPads e iPhones no país, mas o Kindle, da Amazon, alcança só dezenas de milhares de leitores.
As grandes editoras estão dedicando grande atenção ao mercado. Mas isso não significa que as pequenas não possam concorrer, diz Celaya.
"Na era digital, toda editora, independentemente do tamanho, pode distribuir até em nível global."




sábado, 20 de abril de 2013

"História das livrarias cariocas", de Ubiratan Machado. O livro, o texto do Globo

O delicioso caderno "Prosa & Verso" do Globo publicou hoje quase três páginas sobre o livro "História das livrarias cariocas". Não vi ainda e gostei. Preço salgado. Vou comprar quando ganhar um extra. Recomendo mesmo sem ler. Quer saber detalhes de preço etc, clique aqui. Quer saber mais sobre o livro, leia no Globo.


Imagem ilustrativa

quarta-feira, 17 de abril de 2013

"Por trás da notícia, o processo de criação das grandes reportagens", Edson Flosi


Um aluno descobriu pesquisando sobre New Journalism na minha aula e achei interessante. Já encomendei o meu exemplar via internet e em breve comento aqui no nosso blog. Vejam a pequena sinopse publicada no site da Livraria da Travessa:

"Autor de mais de 500 reportagens assinadas e publicadas em grandes veículos da imprensa, Edson Flosi apresenta neste livro uma amostragem histórica do jornalismo à moda antiga. Reproduz o texto integral de 15 grandes reportagens publicadas no Jornal da Tarde e na Folha de S.Paulo entre as décadas de 1960 e 1980, acrescidos de imperdíveis comentários sobre seus bastidores, além de preciosas dicas de a puração, processo de criação e produção das matérias."

Para saber mais, clique aqui.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

"Repórter no volante", Sylvia Moretzsohn



Está sendo lançado. É sobre histórias de motorista de redações. Já encomendei meu exemplar. Convivi com muitas dessas feras e mostro aqui para quem quiser e tiver tempo de ler uma crônica que escrevi sobre o saudoso Dodô do Globo. 

Dodô e o Judas

"QUEM TRABALHOU NO GLOBO, na década de 70, lembra dele. Chamava os filhos do homem de Robertinho, Joãozinho e Zezinho e dizia que tinha sido motorista do velho Irineu. Dr. Roberto era Dr. Roberto. Mas quando era demitido e precisava do apoio do homem, virava Roberto mesmo. Certo dia, numa dessas vezes, interpelou o patrão com sua voz miúda:

- Roberto, aquele filho da puta do meu chefe me demitiu mais uma vez...
E chorou diante do nosso saudoso ex-companheiro, que sempre arranjava um jeito de contornar a situação.

Tinha o hábito de dormir no carro da reportagem, assim que chegava para trabalhar. Já no final da carreira, era escalado para fazer a madrugada. Pequenas tarefas como buscar algum repórter retardatário no centro da cidade ou pegar o mapa do tempo.

Como já era um sexagenário (ou seria um septuagenário? Não sei direito) costumava esquecer que o Rio de Janeiro mudara bastante, e ignorava os túneis Santa Bárbara e Rebouças. Uma corrida para o Leblon, por exemplo, era um verdadeiro tour pela cidade: descia pela rua Marquês de Pombal, entrava pela rua do Riachuelo, Lapa, Glória, Flamengo. Aterro? Nem pensar? Ia mesmo por Botafogo, Túnel Novo, Copacabana, Ipanema, e, finalmente, Leblon. Os “focas” estranhavam, mas ficavam calados. Os veteranos avisavam logo ao sair:

- Dodô: vamos ao Leblon, mas pelo túnel, tá bom?

Um dia, quando saiu para buscar o mapa do tempo, desapareceu. Meia-hora, uma hora, duas horas... nada do Dodô. O saudoso Deodato Maia, secretário de Redação, acostumado com os sumiços da figura, deu aquele grito característico que costumava acordar até o Zé Luiz (um negão que quebrava todos os galhos na redação, e que também tinha o hábito de dar as suas cochiladas):

- Cigarrinhoooooooooooooooo! Corre atrás do Dodô que ele sumiu.

Cigarrinho, outro faz-tudo da redação, não precisou ir longe. Bastou virar a rua Irineu Marinho para avistar, de longe, a antiga Rural parada na esquina de Marquês de Pombal com Mem de Sá: no volante, dormindo, Dodô.

Uma vez, ficou mais de um mês sem falar com os colegas de trabalho – aí incluído motoristas, repórteres, fotógrafos, chefes e até o pipoqueiro que fazia ponto na porta do Globo. Também, pudera. Era época de malhação do Judas, e alguém arranjou um boneco daqueles. Os carros da reportagem eram as antigas Brasília de quatro portas. Um sacana colocou o Judas no banco de trás da Brasília, tocou no ombro de Dodô e determinou:

- Dodô: vamos para Copacabana.

Às gargalhadas, os outros sacanas acompanharam Dodô ligar o carro e seguir caminho em direção à Rua Riachuelo. Souberam depois que, ao atravessar o Túnel Novo, naquele tour característico, Dodô, olhou pelo retrovisor e perguntou:

- Que rua de Copacabana? “

Silêncio total.

- Que rua de Copacabana, pô? – insistiu.

Na terceira, virou-se para trás e viu o boneco estendido no banco. Dizem que Copacabana inteira ouviu o grito:

- Filhos da puta!!!!

"Pimenta Neves, uma reportagem", Luiz Octavio de Lima


Como costumo dizer aos meus alunos na faculdade, leio tudo que é livro que tem como título a palavra Jornalismo, Repórter, Reportagem, Imprensa etc. E não poderia ser diferente com esse livro sobre o Pimenta Neves, que acabo de encomendar. Abaixo a sinopse publicada na Livraria da Travessa.

"No dia 20 de agosto de 2000, o diretor de redação do jornal O Estado de S. Paulo, Antônio Pimenta Neves, de 63 anos, matou a namorada Sandra Florentino Gomide, editora da área econômica, de 32, com um tiro nas costas e outro na cabeça, quando ela se preparava para montar seu cavalo Oceano, no Haras Setti em Ibiúna.

O assassinato de Sandra marcou também o fim da carreira extraordinariamente bem-sucedida de Pimenta Neves e foi amplamente coberto pela imprensa nacional. Passados 12 anos do crime, com o criminoso finalmente cumprindo sua pena em Tremembé, no interior de São Paulo, havia ainda muito a desvendar sobre a vida do jornalista, seu relacionamento com Sandra, as origens de ambos e os fatos que culminaram com a tragédia conhecida de todos.

Em Pimenta Neves – Uma Reportagem, não apenas são detalhadas as circunstâncias do crime, mas traçado um relato biográfico daquele que o cometeu. Com base em extensa pesquisa, acesso aos documentos do processo e do julgamento, e cerca de 100 entrevistas - algumas no exterior –, foi recuperada sua trajetória de vida, do berço familiar em Batatais e Araraquara, onde o jornalista iniciou amizades de toda a vida com personalidades da vida cultural como Ignácio de Loyola Brandão, José Celso Martinez Corrêa e tantos mais, a sua vivência em importantes redações - inclusive como correspondente do Estadão nos primeiros momentos de Brasília, ao lado de Vladimir Herzog –, e suas experiências como correspondente internacional e diretor do Banco Mundial, em Washington."

domingo, 31 de março de 2013

Deu no Globo: "O ocaso da Biblioteca Nacional"

Claro que uma matéria sobre os problemas da Biblioteca Nacional como a publicada na Revista do Globo de hoje é assunto aqui no Blog Livros de Jornalismo. Para ler é só passar a mãozinha nas páginas.









sábado, 16 de março de 2013

domingo, 10 de março de 2013

"REALIDADE, a história da revista que virou lenda", Mylton Severiano



Há meses que esperava a divulgação do lançamento desse livro. Li todos os livros sobre a REALIDADE e já tentei fazer dois blogs com meus alunos: Virou Realidade e Realidade Revista.

Já encomendei o meu exemplar no site da Editora. Cliquem aqui.

Leiam a materinha que deu ontem na Folha de S. Paulo.
Livro resgata os bastidores da 'Realidade'
Obra do ex-redator Mylton Severiano inclui informações inéditas do criador da revista
DA COLUNISTA DA FOLHA
O jornalista Paulo Patarra guardou por 40 anos uma caixa de papelão amarelo da Kodak, com cartas, bilhetes e fotos dos tempos em que dirigia a "Realidade", referência de jornalismo nos anos 1960.
Antes de morrer, em 2008, entregou o material a Mylton Severiano, o Myltainho. O antigo redator da revista, como Patarra sabia, estava àquela altura escrevendo um livro sobre a publicação.
Esse material, somado a um "diário de bordo" sobre os 16 primeiros números, também deixados pelo diretor, são a maior riqueza de "Realidade: A História da Revista que Virou Lenda", que Myltainho lança agora pela catarinense Insular. Especialmente pelo ineditismo.
A publicação, afinal, já foi tema de estudos a perder de vista, além de ter sido retratada por outros ex-membros da equipe, como José Hamilton Ribeiro e José Carlos Marão, organizadores de "Realidade Re-Vista" (Realejo, 2010).
Como todo remanescente da revista gosta de lembrar, a "Realidade" foi lançada em 1966 com um projeto singular bancado pela editora Abril -mensal, ambicionava dar conta de assuntos do momento em grandes reportagens, sem perder a atualidade.
Entravam nas edições histórias tão variadas como a cobertura fotográfica de um parto, por Claudia Andujar, ou o premiado perfil dos meninos de rua do Recife, por Roberto Freire (o terapeuta).
O fato de ninguém ali ter certeza de como seria o resultado, eles dizem, ajudou. Assim como, é claro, contar com reportagens de nomes como Luiz Fernando Mercadante e o escritor João Antônio.
No auge, a revista chegou aos 500 mil exemplares vendidos em bancas, em plena ditadura, dando um jeitinho de ser provocativa sem incomodar demais os militares.
Mas a fórmula, como anotou Patarra em 1968, a certa altura deixou de funcionar: "Os generais pediam (depois iam impor) que Realidade se autocastrasse". Pouco depois ele deixaria a revista, acompanhado por mais de dez membros da equipe.
A "Realidade" sobreviveria até 1976, com menos impacto. Myltainho, no livro, encerra sua história em 1968.

REALIDADE: A HISTÓRIA DA REVISTA QUE VIROU LENDA
AUTOR Mylton Severiano
EDITORA Insular
QUANTO R$ 49 (320 págs.)

"A revista no Brasil do século 19", Carlos Costa; e "Modernismo em revista", Ivan Marques

Dois livros que também merecem uma espiadinha, apesar de me parecerem um pouco "acadêmicos" pro meu gosto, e que foram destaques em matéria na capa do caderno "Ilustrada" da Folha são esses dois. Leiam mais abaixo.

Revistas revistas
Dois novos livros contam história de publicações jornalísticas brasileiras desde o século 19
RAQUEL COZERCOLUNISTA DA FOLHA
Não fosse a assinatura do poeta Olavo Bilac (1865-1918), seria fácil confundir o trecho a seguir com algo escrito por estes dias: "O público tem pressa. A vida de hoje, vertiginosa e febril, não admite leituras demoradas, nem reflexões profundas".

A análise saiu na "Gazeta de Notícias", no Rio, em 13 de janeiro de 1901. Àquela altura, já havia quem ficasse nostálgico ao recordar os bons tempos do jornalismo.
Não que antes os homens da imprensa no Brasil soubessem bem onde estavam pisando.
Ou que depois o jornalismo não tenha oferecido algumas de suas melhores e mais profundas reflexões.

Dois livros que saem agora no país ajudam a traçar, com diferentes recortes, o nascimento, as transformações e o impacto de um formato jornalístico que sempre deu margem a textos mais densos, o de revistas.

A trajetória da imprensa ao Brasil, da primeira tipografia que aportou no país em 1808, junto com a corte portuguesa, até os primeiros casos bem-sucedidos do gênero, é o tema de "A Revista no Brasil do Século 19", de Carlos Costa, recém-lançado pela Alameda.

Ainda neste mês, a Casa da Palavra coloca nas livrarias "Modernismo em Revista: Estética e Ideologia nos Periódicos dos Anos 1920", de Ivan Marques -este focado especificamente na produção que repercutiu a Semana de 22.

Em comum, tanto as revistas do século 19 quanto as publicações modernistas dos anos 20 do século passado tendiam a durar pouco: como não existiam fórmulas, o jeito era seguir na base da tentativa e do erro.

Escrito como tese de doutorado para a Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), com base em ampla pesquisa nos arquivos da Fundação Biblioteca Nacional, o livro de Carlos Costa partiu de premissa arriscada -a de, antes de tudo, identificar o que era jornal e o que era revista nos anos 1800.

Com o jornalismo ainda nascente, não existiam as nomenclaturas de hoje. Para Costa, as definições ficaram claras a partir de 1870, com a invenção do telégrafo: jornal era o que repercutia notícias imediatas; revista era o que buscava aprofundá-las.

Antes disso, existiam algumas pistas, como as ilustrações, historicamente ligadas às revistas: foi nelas que grandes desenhistas, como o italiano Angelo Agostini (1843-1910) e o português Rafael Bordallo (1846-1905) fizeram história no país.

Foi nas revistas que primeiro apareceram nomes como Casimiro de Abreu e Machado de Assis -ambos trabalhavam para Francisco de Paula Brito na "A Marmota na Corte", de 1849, uma das mais importantes do período.

Não que o trabalho de redatores fosse reconhecido àquela altura. "Na verdade, era possível encontrar pistas dos autores dos textos. Mas a maior parte usava pseudônimos. Não havia esse conceito de autor de texto jornalístico, de reportagem assinada", afirma Costa.

Um dos casos mais famosos, ele lembra, foi um virulento ataque contra o jornalista português Luis Antonio May (editor da "Malagueta"), publicado em 1823 em "O Espelho". O autor, que se refere ao desafeto com termos chulos sobre suas preferências sexuais, seria d. Pedro 1º, segundo a historiadora Isabel Lustosa.

Outras publicações, como a "Semana Illustrada", de 1860, ajudaram a consolidar o formato que se firmaria por décadas, de revistas com oito páginas, intercalando textos e ilustrações. Esta ficaria conhecida pela profissional cobertura da Guerra do Paraguai (1864-1870), com ilustrações feitas a partir de fotos.

Para Costa, a maior importância daquelas publicações foi consolidar a identidade de um país em formação. "No início do século 19, ninguém era brasileiro. Eram todos nascidos no Brasil colônia, portugueses. Foi por meio da imprensa que esse país encontrou sua cara", diz.

MODERNISTAS
No início da década seguinte, nos anos 20, a imprensa ajudaria também a dar a identidade que os modernistas buscavam.

Ao estudar sete publicações do gênero dentre as dezenas que pipocaram pelo país naquele período, o crítico literário Ivan Marques se impressionou ao perceber que, ao contrário do que se esperaria de uma vanguarda, as revistas modernistas tinham mais um aspecto construtivo que de destruição.

"Em 'Klaxon', a primeira delas, criada em 1922, ainda há esse espírito destruidor, mas ele se dilui ao longo da década. A 'Verde', em 1927, e 'A Revista de Antropofagia', em 28, tentaram de algum modo restaurar esse espírito iconoclasta", diz.

Para Marques, as revistas -onde primeiro publicaram nomes como Carlos Drummond de Andrade- são o testemunho vivo de um dos períodos mais agitados da cultura brasileira. "Elas mostram, entre outras coisas, que o modernismo não se limitou à Semana de Arte Moderna, e menos ainda à cidade de São Paulo."

A REVISTA NO BRASIL DO SÉCULO 19
AUTOR Carlos Costa
EDITORA Alameda
QUANTO R$ 66 (456 págs.)

MODERNISMO EM REVISTA
AUTOR Ivan Marques
EDITORA Casa da Palavra
QUANTO a definir (176 págs.)

    segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

    "O chalé da memória", Tony Judt


    Não é um livro de jornalismo ou sobre o jornalismo, mas é um livraço. Deliciosas 222 páginas. Judt foi um baita historiador, autor do clássico "Pós-Guerra". Vale a pena conferir. Para saber mais, clique aqui.

    quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

    "Entre sem bater - A vida de Apparício Torelly, o Barão de Itararé", Cláudio Figueiredo


    Li em dois dias, no Natal, as maravilhosas 479 páginas desse livraço dessa figuraça conhecida como Barão de Itararé. Leiam já.

    terça-feira, 18 de dezembro de 2012

    "Chaplin e outros ensaios", Carlos Heitor Cony


    Não é bem um livro de Jornalismo, mas é Cony. E Cony dispensa apresentação. Li quase todos os livros dele, sempre que posso leia sua coluna na Folha e começo a ler este. Aula de escrita, como sempre. Para saber mais, clique aqui.

    "Entre sem bater - A vida de Apparício Torelly, o Barão de Itararé", Cláudio Figueiredo


    Já está separadinho para ler. Recebi, dei uma espiadinha e gostei. Escrever sobre o Barão não tem erro.

    Pra saber mais detalhes, clique aqui.

    sábado, 1 de dezembro de 2012

    "Irineu Marinho - Imprensa e Cidade", de Maria Alice Rezende de Carvalho. Resenha de Paulo Cezar Guimarães no Globo


    Escrevi para o caderno "Prosa & Verso" a resenha do livro "Irineu Marinho - Imprensa e Cidade", de Maria Alice Rezende de Carvalho. Livraço.


    Para ler a resenha no blog do caderno "Prosa & Verso", clique aqui.

    Para saber detalhes e comprar o livro, clique aqui.

    sábado, 24 de novembro de 2012

    Livro sobre Irineu Marinho será lançado na quinta-feira, dia 29


    Estou lendo e recomendo. Em breve mais informações.

    "Memórias de um sobrevivente - a verdadeira história da ascensão e a queda da Manchete", Arnaldo Niskier

    Nunca trabalhei na Manchete. Fiz alguns frilas para a "Fatos e Fotos" no início da carreira. Mas já li dois livros sobre a revista (um deles do meu camarada José Esmeraldo Gonçalves) e li matéria e resenha sobre o livro do Niskier na Folha de hoje (ver abaixo). Para saber preço e sites de livrarias que estão vendendo, clique aqui.


    Apogeu e queda da revista 'Manchete' é tema de livro
    Volume narra a trajetória da empresa de comunicação criada por Adolpho Bloch
    Arnaldo Niskier, autor da obra, trabalhou por 37 anos no grupo e diz que investimento na TV foi a causa da derrocada
    FABIO BRISOLLADO RIO
    Corria o ano de 1955 quando um repórter iniciante da revista "Manchete Esportiva" tomou uma atitude ousada: pediu ao todo-poderoso Adolpho Bloch, dono à época de amizades influentes e de um conglomerado de comunicação, que fosse seu fiador em um apartamento que iria alugar.
    Mesmo sendo um desconhecido para o dono da editora, o jovem funcionário conseguiu o avalista, que fez uma ressalva: "Se você não pagar [o aluguel em dia], corto seus ovos, hein!".
    Quase 60 anos depois, a história é uma das muitas contadas por Arnaldo Niskier, hoje membro da Academia Brasileira de Letras, no livro "Memórias de um Sobrevivente - A Verdadeira História da Ascensão e Queda da Manchete".
    Niskier dedica o livro aos 1.800 funcionários das empresas Bloch que, em 2000, tiveram suas atividades "abruptamente encerradas" por conta de um pedido de falência do grupo feito à Justiça.
    O grupo Bloch publicava as revistas "Manchete", "Fatos e Fotos", "Ele & Ela", "Amiga" e "Desfile". Além da editora, faziam parte da organização gráficas, emissoras de rádio e uma rede de TV.
    O escritor e jornalista acompanhou de perto o auge e o declínio do grupo de comunicação criado por Adolpho Bloch, judeu de origem russa que deixou seu país após a Revolução de 1917 e desembarcou no Rio em 1922.
    "O Adolpho foi o maior brasileiro nascido na Rússia. Ele era um patriota, que amava o Brasil", elogia o autor, que trabalhou por 37 anos nas publicações da editora. Começou como repórter e chegou à direção da revista "Manchete".
    No auge, entre os anos 1970 e 1980, a revista "Manchete", principal publicação do grupo, chegou a atingir uma tiragem semanal de 350 mil exemplares.
    Suas edições especiais de Carnaval, repletas de fotos dos bailes e desfiles do Rio, esgotavam em poucas horas.
    Niskier conta que a editora acumulava US$ 25 milhões em caixa até que Bloch decidiu investir em uma emissora de TV. "Foi o grande erro dele", avalia. "Apenas com a aquisição de filmes, gastou US$ 16 milhões."
    A Rede Manchete foi inaugurada em junho de 1983, iniciando a partir daí uma trajetória com alguns acertos, como a novela "Pantanal" (1990), e muitos programas de baixa audiência.
    Em 1999, a concessão da emissora foi vendida para o empresário Amílcare Dallevo, que fundou com Marcelo de Carvalho a RedeTV!.
    A troca de comando também marcou o início de uma disputa judicial para decidir se os novos donos herdariam as dívidas da emissora.
    Bloch morreu em novembro de 1995, antes de seu império chegar ao fim.
    Pressionado pelas contas a pagar após lançar a TV, ele desconcertava seus interlocutores com algumas de suas frases características, como "Ouço todo mundo, mas só faço o que quero" e "O dinheiro é uma simples questão de contabilidade".

    CRÍTICA JORNALISMO
    Escritor revê trajetória em tom épico
    Apesar de crítico à gestão idiossincrática da família Bloch, trabalho deixa de lado temas espinhosos
    ELEONORA DE LUCENADE SÃO PAULOO império de Adolpho Bloch foi um colosso. Tinha rede de TV, rádios, revistas, parque industrial e quase 7.000 funcionários no seu auge, entre os anos 1980 e 1990. Sua telenovela "Pantanal" conseguiu quebrar a hegemonia da Globo no horário nobre.
    Tudo se esboroou. Dívidas e erros de gestão afundaram o conglomerado. A saga dessa ascensão e queda ganha uma narrativa peculiar em "Memórias de um Sobrevivente", de Arnaldo Niskier.
    No livro, estão histórias de bastidores da empresa, cartas, discursos e fragmentos de textos publicados na principal revista do grupo, a "Manchete".
    Niskier, 77, trabalhou no grupo por 37 anos. Exerceu vários cargos de chefia e conviveu com o dono, Adolpho Bloch (1908-1995). Desse posto privilegiado de observação, ele recorda momentos em que o chefe aparecia como generoso, irado, otimista ou teimoso.
    "Adolpho poderia ter saído de 'Guerra e Paz', o grande romance de Tolstói. Havia nele o sentimento épico da grandeza humana", diz.
    Para o escritor, que é membro da Academia Brasileira de Letras, a derrocada do grupo é resultado da "sucessão letal de equívocos" decorrentes do investimento em TV feito na década de 1980 -"um sorvedouro de dinheiro e de preocupações".
    Na sua avaliação, a empresa passou "a navegar às tontas, com um brinquedo caríssimo, que acabou sacrificando os até então bons resultados da mídia impressa. Os Bloch trocaram de rumo e bateram num pesado iceberg", afirma.
    Niskier conta que, no final da vida, Bloch "assinava cheques já sem saber direito o que estava fazendo". Depois que ele morreu, "os credores mudaram de atitude": veio o naufrágio final.
    A origem do grupo foi a indústria gráfica. O pai de Adolpho chegou a imprimir o dinheiro do governo provisório de Kerenski, na transição revolucionária na Rússia de 1917. Com a chegada dos bolchevistas ao poder, a família deixou o país.

    IMPÉRIO
    No Brasil, as bases do império foram sedimentadas pela revista "Manchete", que deixou de circular em 2000, após 48 anos. Como um pesquisador de arquivo, Niskier pinça reportagens e crônicas da publicação.
    O mosaico passa por Getúlio Vargas, Brasília, bossa nova, futebol. E por textos saborosos de Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues, Carlos Heitor Cony, Carlos Lacerda, Joel Silveira.
    Niskier conta que Bloch resistiu ao investimento em TV e responsabilizava o sobrinho pela "desgraça na vida dele".
    Oscar, então vice-presidente do grupo, "tinha se empenhado muito pela concessão do canal, junto ao governo do general João Baptista Figueiredo, onde tinha alguns amigos", escreve.
    Em "Os Irmãos Karamabloch" (2008), Arnaldo Bloch, um dos herdeiros, foi mais mordaz: "Estava na hora de o regime militar retribuir à 'Manchete' os serviços de propaganda prestados ao Brasil Grande", escreve sobre a estratégia de parte da família.
    O endividamento não era visto como problema. Niskier cita um discurso do empresário de 1978, quando o império crescia: "Eu vivo no vermelho desde que nasci e é isso que me faz trabalhar e cumprir meus compromissos. Se eu estivesse no preto, não teria feito nada. Estou resolvendo todos os meus problemas com otimismo, porque acredito no Brasil Grande".
    Mas, em pleno Plano Cruzado, quando as dívidas começaram a apertar o grupo, Bloch foi pedir ajuda ao então presidente José Sarney.
    Queria um corte pela metade dos juros pagos ao Banco do Brasil. Diante da recusa, Niskier relata que o empresário saiu da sala e caiu em prantos, repetindo: "Nunca passei por uma humilhação tão grande!".
    Apesar de crítico à gestão idiossincrática da família Bloch, o livro em algumas partes transpira uma atmosfera oficial, deixando de lado temas espinhosos. Afirma que o empresário não aguentava ver algum amigo seu espinafrado pelas edições do grupo.
    Niskier nega que a empresa tenha recebido "empréstimos mirabolantes" para apoiar Juscelino Kubitscheck e o projeto de Brasília -cuja cobertura deu dimensão nacional à "Manchete". "Adolpho era admirador da ousadia, da coragem de JK e se identificava com ele", defende o autor.
    Depois do golpe de 1964, o autor conta que Bloch soube das dificuldades que JK passava no exílio. "Adolpho mandou-me duas vezes como emissário a Paris e a Nova York, levando US$ 7.000 para o ex-presidente", lembra.
    Niskier também revela casos que beiram o pastelão. Num deles, Bloch levou um soco de um operário a quem chamara de ladrão, por estar dormindo em horário de trabalho. "Eu estou errado, mas ladrão é o senhor", disse o funcionário.
    O empresário não demitiu o agressor. "Ele tinha razão. Eu não devia ter chamado ele de ladrão."

    MEMÓRIAS DE UM SOBREVIVENTE
    AUTOR Arnaldo Niskier
    EDITORA Nova Fronteira
    QUANTO R$ 49,90 (312 págs.)
    AVALIAÇÃO bom

    FOTOGRAFIA
    Acervo de imagens desapareceu
    Em 2010, o acervo fotográfico do grupo Bloch foi vendido por R$ 300 mil a um colecionador. Até hoje os ex-profissionais da Bloch não sabem onde as fotos, muitas delas históricas, estão guardadas, e nem se estão armazenadas em condições adequadas. Saiba mais em folha.com/no1189999.